A abordagem dos costumes - importante via para a mudança de comportamentos

O conteúdo, aqui compartilhado, resulta de um estímulo inesperado desses que, quase sempre, deixo vir e ir. Em muitas ocasiões, a razão repressiva venceu a criatividade. Não desta vez. Correr o risco é a palavra de ordem.


Nos últimos dias, elementos relacionados à tradição fizeram parte de algumas abordagens que, intencionalmente ou não, me alcançaram. Nas entrelinhas de diversos conteúdos, ideias sobre rituais, crenças e lendas ativaram memórias que trouxeram conhecimentos acumulados, de alguma forma, articuláveis.


Partindo do pensamento sistêmico, no qual se fundamentam alguns dos mais remotos e não menos importantes conhecimentos científicos acessados em minha trajetória profissional e, chegando a medicina do estilo de vida, que tem despertado o meu interesse, cada vez mais, a tradição, compreendida de forma simplificada como transmissão de costumes, ganhou, aos meus olhos, no contexto do cuidado em saúde, vestes novas ou, pelo menos, ajustadas.


Sob a perspectiva da complexidade, a abordagem sistêmica lançou seu olhar para o indivíduo, considerando a importância do contexto e das relações estabelecidas. No campo da adoção de hábitos para um estilo de vida mais saudável, cuja centralidade está no aprimoramento de competências e habilidades comportamentais e emocionais, ganharam foco o desenvolvimento humano e as relações.


Não há como desconsiderar que os costumes se fazem, são compartilhados e transmitidos por meio das relações e influenciam comportamentos. Assim, podem ser aliados quando se pretende a adoção de novos comportamentos quer seja na substituição ou no fortalecimento de um hábito.


Elementos relacionados ao cuidado centrado na pessoa, além daqueles relativos ao princípio da autonomia, contribuem, também, para a percepção de quanto os costumes deveriam ocupar lugar de destaque nas abordagens dos profissionais de saúde. Para fazer escolhas é importante que o paciente esteja conectado com sua essência, o que ocorre, também, por meio da história de vida.


Sabedores de que as vivências e experiências impactam os processos de cuidado, compreendemos que o conhecimento dos costumes colabora na identificação de valores e seus significados na experiência pessoal do paciente. Descobrir como podem ser utilizados para fortalecer a capacidade e a possibilidade de tomada de decisão relacionada ao cuidado é atitude decisiva em muitas abordagens.


Considerando a experiência pessoal contextualizada e ponderada pelo profissional de saúde, o paciente deve ser estimulado a se conectar com os costumes. Apesar de negligenciados nos tempos atuais, tal aspecto exerce forte interferência nos processos de cuidado. A identificação de costumes adotados pela força da tradição é norteadora para o dimensionamento dos desafios e das potencialidades para o autocuidado apoiado.


Um paciente tabagista, por exemplo, ao relembrar o ritual de compartilhar o cigarro de palha com o avô, poderá localizar o prazer associado ao contexto de tranquilidade, afeto, calma, valorização ou outros e não, simplesmente, ao uso do cigarro. Ao localizar a sensação de prazer em outros elementos do contexto, possibilitará a ressignificação da função do hábito, favorecendo a identificação de um caminho para alterá-lo ou substitui-lo.


Da mesma forma, o sentimento de alegria, ao ser identificado em diferentes costumes ou como característica de uma determinada família, pode favorecer a adoção de um novo propósito de vida, com o imperativo da alegria como norteador de escolhas e comportamentos, ampliando-se o arcabouço de oportunidades para a condução do processo de cuidado pelo profissional de saúde, em direção aos comportamentos saudáveis.


Sendo assim, pergunta-se: Quais conjuntos de valores (culturais, materiais e espirituais) contribuem para os comportamentos e as formas de interação do paciente? Que crenças e regras afetam as decisões e condutas desse paciente? É importante identificar, dentre os costumes a serem analisados na proposta de cuidado, aqueles que poderiam prejudicar, estimular ou sustentar um novo comportamento.


Conhecimentos, conceitos e hábitos perpetuados tendem a ocupar importante espaço na vida das pessoas. Por isso, cientes de que os costumes e valores influenciados pela tradição nem sempre são aqueles potencialmente favoráveis e tendo em vista que os pensamentos e ações sofrem influências comerciais e midiáticas, é importante que os profissionais de saúde estimulem que os pacientes estejam, cada vez mais, conectados com suas próprias histórias.


É coerente pensar que o resgate de aspectos da identidade (incluindo valores e costumes que vem da tradição) possui potencial para tornar os movimentos em direção ao alcance de propósitos mais assertivos e a caminhada em direção a eles não esvaziada de sentido.


Como, então, ampliar a conexão dos pacientes com a sua própria essência e valores? O alcance deste complexo objetivo na ação cuidadora possui algumas vias como, por exemplo, aquela que estimula as práticas meditativas e de atenção plena. Cabe-nos destacar aqui, a conexão pelo resgate dos costumes. Ajudar o paciente a observar-se e a reconhecer-se é possível, também, por meio da atenção aos costumes familiares e comunitários ou às experiências vividas por ele.


Muitas vezes, uma determinada tradição é seguida sem ser considerado o verdadeiro significado que esta possui. Se o paciente consegue conectar-se com os significados esquecidos ou atribuir novos significados aos elementos relacionais decorrentes dos costumes pode conseguir um alinhamento entre mente e corpo. Isto tornará possível desvelar, modificar ou fortalecer propósitos de vida e ampliar a motivação e a segurança para agir em direção a um determinado modo de vida.


Dessa forma, no processo de cuidado, é imperativo perceber e valorizar as relações que fizeram e fazem parte da vida do paciente, além dos sentimentos que carregam e do legado que deixaram. Mas como fazer isto na prática? Alguns caminhos são: abrir espaço para a escuta do paciente, de forma valorizar aspectos relacionados aos valores e às tradições; dialogar sobre as experiências, os costumes e os hábitos familiares e comunitários; buscar pelos sentimentos relacionados às lembranças relacionadas aos hábitos, abordando as lembranças primeiras e mais importantes na visão do paciente; prescrever tarefas que evoquem memórias afetivas de costumes e rituais por meio de leituras, filmes, fotografias, receitas culinárias, peças antigas, recordatórios e contatos com pessoas de convívio menos frequente.


O processo investigativo orientado para as memórias e sentimentos nelas presentes podem evocar costumes decorrentes da tradição, que, ao serem retomados, poderão fazer emergir novos pensamentos e significados. As memórias afetivas são um importante caminho para o desvelamento de valores e podem ser estimuladas por atitudes e tarefas específicas. Para cada paciente existe um caminho. O cuidado focado na subjetividade pressupõe que o profissional adote postura investigativa e métodos diferenciados. Usar a criatividade é o caminho.


O envolvimento no cuidado é uma das responsabilidades dos profissionais. Ao repensar sobre "como" é possível cuidar com interesse, novas práticas poderão ser adotadas. A tradição, via de regra, detém um lugar importante entre as convenções que são os pilares das culturas e das experiências vividas, por isso, sinalizam positivamente a possibilidade de uma interação genuína com o paciente.

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