Alienação alimentar, Marx, arroz e feijão

Você sabe quem prepara seu almoço no restaurante? De onde vem os alimentos que você compra no supermercado? Como são feitos os produtos alimentícios que você consome? Como a salsicha é fabricada? E o que tem no molho de salada pronto? Sabe para que serve o metabissulfito de sódio que está na bolacha do lanche do seu filho ou o dióxido de silício do seu cappuccino de cápsula? Você sabe o que é o tal polissorbato 80? Sabe que alimentos deve comer para ter saúde? Ou aqueles que não deve comer? Sabe diferenciar fome de ansiedade com certeza? Consegue perceber a hora em que deve parar de comer? Afinal, ovo pode ou não pode?


Se você não sabe não se desespere. Eu também não sei. Sofremos, eu e você, de alienação alimentar. Sim, mesmo a vida sendo muito complicada nós inventamos mais uma coisa com nome estranho para tirar o nosso sono.


Alienação é um dos conceitos mais caros para a filosofia, sociologia e psicologia. Alienado é aquele que perdeu-se de si e da totalidade de sua vida, aquele que se afastou ou foi afastado de sua natureza. Alienado é alguém separado de um aspecto essencial de sua natureza. Este termo nasce jurídico para nomear a perda de posse e termina na psicanálise com aquele que perdeu a capacidade de desejar por si mesmo.


O grande responsável por tornar esse termo tão usado e famoso, até mesmo polêmico, foi o não menos famoso filósofo Karl Marx. Hoje, graças a ele, temos à nossa disposição mais uma forma de ofender alguém (Quem nunca chamou um outro de “alienado” com a boca cheia de raiva que atire a primeira uva passa!).


Marx revê o conceito de alienação de Hegel e Feuerbach e fala da perda de controle que o homem do seu e do nosso tempo tem sobre sua vida e trabalho. O homem estava, pela mudança dos modos de produção da indústria, se separando da posse de seu trabalho. Para ele o homem que perdia o controle de seu trabalho perdia o controle de sua vida. A alienação para Marx acontecia em quatro campos: da natureza, de si mesmo, de sua espécie e dos outros seres humanos.

E não é isso que vivemos hoje em nossa relação com a comida? A alimentação é, junto com o respirar, uma necessidade essencial. É da essência de um animal comer e nesse ato estamos o mais próximo da natureza de quem somos ou deveríamos ser. A organização do modo de produção de alimentos na sociedade moderna repete o modo de fazer da indústria. Isso nos alienou da Natureza de onde o alimento originalmente vem. Não sabemos mais quem produz a comida que chega à nossa mesa, por quantas mãos passou, quanto investimento de tempo e esforço foi dedicado para conseguir compor um prato. Perdemos a consciência de que aquela carne moida veio de um animal, de que alguém plantou e colheu aquele pepino.


A indústria com seus avanços criou alimentos quase sintéticos. Os ultraprocessados são compostos de inúmeros componentes de nomes tão estranhos que um rótulo de um molho de salada pode daqui a algum tempo ser muito parecido com o de um shampoo. Com esses alimentos a comida perdeu sua característica natural: sabor, cheiro, consistência, durabilidade... nada parecidos com o de um alimento natural.


Perdemos também o domínio sobre a produção direta do alimento. Muitas pessoas nunca prepararam uma refeição. A alienação do "saber fazer" se aprofunda a cada dia com a possibilidade de “pedir” o que já está pronto e nisto acabamos na alienação das escolhas com as possibilidades reduzidas dos cardápios de delivery. As habilidades culinárias vão aos poucos se reduzindo a saber pedir no aplicativo e desembalar.


Aliás é no campo do saber que a alienação é sempre mais grave. Não sabemos mais o que comer e porque comer. A criação e deturpação de uma “ciência alimentar” fez da escolha do que comer um conhecimento tão complexo e hermético que não pode ser dominado por uma pessoa comum. Por esse caminho ninguém mais conseguirá em breve escolher o café da manhã sem a ajuda dos especialistas. A comida passa de alimento a nutriente e a nutrição vira no fim uma farmacologia alimentar.


Essa forma de tratar a comida a torna uma ferramenta que se envolve na alienação do homem como parte de sua espécie. O corpo não é mais tratado como um organismo vivo mas um objeto passível de ser moldado à nossa vontade, transformado no que quisermos, esculpido e modificado. Basta, nesta fantasia, utilizar o nutriente certo na hora certa. É o que Susan Orbach chama de mentalidade de dieta e que coloca o corpo sobre o domínio da cultura e de seu controle. Um controle que no fim se processa pela inveja.


O psicanalista e filósofo Lacan, revendo Hegel e Freud, vê a alienação como o desejo “do desejo de outro”. O desejo é de alcançar um corpo como “o corpo de outro”. Um corpo já criado à imagem e representação de um ideal cultural. Não importa o custo e desconforto necessário para alcança-lo e depois mantê-lo. Assim como o operário de Marx que ao perder a capacidade de produzir o produto todo de seu trabalho está preso ao sistema, ficam as pessoas presas ao esforço de manter o corpo ideal que as permite fazer parte dessa cultura.

O corpo, que já não é mais corpo mas um objeto, está alienado também das sensações. Fome e saciedade são sensações perdidas ou não aprendidas. O quanto se deve comer, quando e quando parar não tem às vezes regulação interna. É o espaço onde nascem as compulsões alimentares.


Por fim, seguindo a mesma lógica de Marx, nos alienamos do outro quando o comer sai do espaço da biologia e vai para o campo de guerra da moralidade. Psicanalistas como Herrmann e Minerbo no interessante artigo “Creme e castigo” publicado em 1998, mostram que a moralidade invadiu a cozinha como invadira antes a cama. O padrão alimentar se tornou objeto de avaliação moral, julgamento e separação. No nosso tempo o que se come ou não é usado para determinar o quão bom e virtuosos somos. Criamos contendas entre as tribos que tem preferências ou aversões alimentares opostas em uma luta de classes alimentares.


A alienação é a perda e a separação. A solução é o reencontro e a consciência. Precisamos nos reencontrar com o alimento em sua forma natural e de forma mais natural. Precisamos reencontrar o saber alimentar nas preparações e nas escolhas, reconhecendo a sabedoria da cultura alimentar tradicional. Precisamos reencontrar as sensações corporais para que elas nos ajudam a decidir o que, quanto e quando comer. Precisamos refazer nossos rituais alimentares. Precisamos por fim nos reencontrar uns com os outros na mesa em paz, sem julgamento, e nos complementar na diversidade como arroz e feijão fazem tão bem.

0 comentário