• Luiz Carlos Oliveira Júnior

Ciberespaço, uma nova fronteira da saúde global

Atualizado: Fev 24

“Espaço, a fonteira final...”

Essa era a abertura de cada episódio da famosa série de TV e cinema Star Trek (Jornada nas Estrelas). Na década de 1960, quando a série foi lançada, a corrida espacial colocou em nossas cabeças o sonho de explorar o espaço. Ele seria a fronteira final da humanidade. Mais de 60 anos depois não realizamos o sonho de viajar por aí em uma nave como a Enterprise do Capitão Kirk e Doutor Spok. Nem parecemos estar perto disso, apesar dos esforços de futuristas da "Era exponencial" de nos fazer acreditar que é só virar a esquina e alguma startup vai começar a oferecer viagens à Lua para nossas próximas férias.

Enquanto esse futuro não chega, um presente muito mais presente está à nossa porta. Uma nova fronteira, um novo mundo em construção: o ciberespaço. Desde que os computadores entraram em nossas vidas cotidianas com os smartphones e a internet criou uma forma de conexão em massa, passamos a viver dentro desse espaço virtual e fazer tudo em seu interior. Não há nenhum aspecto da nossa existência que não tenha sido tocado e incorporado a esse lugar. Apesar de nem percebermos isso com clareza não vivemos mais no mundo real, vivemos no ciberespaço. Nossas ações, relações, escolhas, tarefas, trabalhos, compras, tudo de nossas vidas é mediado pelo mundo digital.

Em 2019 são 7,7 bilhões de habitantes no mundo e 58% usa internet. As redes sociais tem 3,5 bilhões de usuários. No Brasil 70% das pessoas tem acesso a internet e gastam 9,5h dia em média de seu tempo on-line. Somente para o uso de redes sociais dedicamos 3,4 horas por dia em média do nosso tempo. Diariamente nos conectamos, usamos esses serviços, criamos dados, consumimos produtos e informação. E também somos influenciados por eles.

Desde que a internet se tornou um fenômeno global pesquisadores passaram a se interessar e se preocupar com nossa relação com as ferramentas digitais. Uma das áreas de estudo mais interessantes é a Cyberpsicologia. Ela vê o cyberespaço como um fenômeno de projeção de todas as mentes de seus usuários, ou seja, ele é a soma das nossas realidades. O Cyberespaço é um mundo onde vivemos, pensamos e refletimos. Mas também um lugar em que podemos ver como as outras pessoas pensam e sentem sobre tudo o que ocorre. E isso tem uma poderosa força de moldar comportamentos. Diversas pesquisas nessa área mostram a grande influência que o cyberespaço tem sobre nossas escolhas, para o bem e para o mal.

O espaço virtual tem um grande potencial para o campo da saúde. É uma nova fronteira para a saúde global. Se ele é um lugar onde passamos tanto tempo de nossas vidas também é um lugar de adoecimento e potencial busca de saúde. Assim como podemos usar o cyberespaço para promover saúde, fornecer acesso fácil a tratamentos, monitorar parâmetros e gerenciar melhor vários aspectos da saúde, também assistimos a expressão de patologias digitais em volume crescente. A dependência de smartphones, games, cyberpornografia e redes sociais é um problema presente nos consultórios de médicos e psicólogos hoje além de um sério problema para as famílias.

Toda nova fronteira é um lugar difícil, muitas vezes inóspito e selvagem. O cyberespaço é assim, às vezes um lugar de aparente selvageria, sem lei e sem ordem. Mas também é um local de oportunidade. Mal sabemos o que podemos fazer pela saúde global nesse espaço. A cada dia uma ideia nova e interessante surge para ser colocada à prova. O que não podemos mais fazer é ignorar a sua importância. Todos os envolvidos no desafio da saúde precisam entender o cyberespaço como um novo lugar de existência, de saúde e adoecimento. Ele tem regras próprias e por isso teremos que reconstruir tudo o que sabemos sobre a saúde para esse novo mundo. Deveríamos nos preocupar e motivar com esse desafio. Afinal, em 2019, todos os seres humanos juntos terão gasto 1,2 bilhões de anos ligados à internet. É muito tempo e não podemos perder mais tempo. Temos que aproveitar essa oportunidade de promover saúde.

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