Coronavírus, vidas perdidas e economia: como escolher um lado?

Questões ligadas à saúde que exigem uma escolha entre duas posições quase sempre despertam desconforto intenso. Estamos vivendo agora essa ambivalência. A pandemia de coronavírus está parando o mundo e provocando recessão econômica.


Discussões acaloradas giram em torno do benefício de conter a perda de vidas humanas e dos estragos que o desemprego produzido pelas medidas necessárias produzirão. Salvar vidas ou salvar a economia? Salvar a economia salvará mais vidas ou salvar mais vidas ajudará a economia? Existe um preço para uma vida humana? Mortes são sofrimentos toleráveis nesse momento? Não é fácil lidar com questões tão complexas em um evento inesperado como esse sem dados seguros.


O que a história diz sobre a relação entre pandemias, as medidas de controle e economia?


Quando precisamos resolver a ambivalência e fazer uma escolha, as diversas teorias sobre mudança comportamental indicam que o passo inicial é aumentar a consciência sobre o problema adquirindo mais informações que sustentem uma decisão. O mundo já enfrentou diversas epidemias e pandemias. Podemos tentar aprender com elas.


A pandemia mais recente na nossa história e sobre a qual mais temos dados é a Pandemia de Gripe Espanhola no começo do século passado. Entre 1918 e 1920 ocorreram 3 ondas de infecção pelo vírus H1N1 infectando 500 milhões de pessoas, um quarto da população mundial. O número de pessoas mortas pela pandemia é incerto mas acredita-se que tenha sido em torno de 40 milhões de mortos.

Na ausência de uma vacina as intervenções possíveis para o enfrentamento da pandemia de gripe foram medidas não farmacológicas de proteção individual e coletivas, como uso de máscaras e medidas de higiene, isolamento social em graus variados. Para analisar o efeito dessas medidas Markel e colegas em um estudo publicado em 2007 compararam 43 cidades americanas quanto às taxas de mortalidade e a aplicação de medidas não farmacológicas no período de setembro de 1918 e fevereiro de 1919.


O primeiro dado interessante desse estudo é que não houve uma relação entre medidas de proteção individual e mortalidade. Apenas as medidas não famacológicas coletivas tiveram efeito sobre a redução da mortalidade. As medidas mais utilizadas foram o fechamento das escolas e a proibição de aglomerações de pessoas como as reuniões públicas. Elas foram adotadas em algum período por 79% das cidades. As comparações mostram que as cidades que atuaram de forma mais precoce conseguiram atrasar o pico de infecção e mortes reduzindo a mortalidade geral. Houve também uma relação entre o tempo de duração dessas medidas e a redução da mortalidade.


O estudo mostra que aquelas cidades que atuaram de forma sustentada tiveram maior sucesso no controle da doença. Um exemplo foi a comparação entre as cidades de Nova Iorque e Pittsburgh. Enquanto Nova Iorque adotou medidas mais precoces e rígidas resultando em uma mortalidade de 452/100.000 habitantes, Pittsburgh demorando mais para adotar as medidas e o fazendo de forma menos rígida alcançou 807 mortes por 100 mil habitantes.


Outro dado interessante foi a associação entre o relaxamento das medidas de isolamento e novo pico de infecção. Nas cidades que tiveram 2 picos de mortes por gripe sempre houve associação com uma redução das intervenções.

Os autores dizem que o sucesso no controle da pandemia esteve ligado às força de intervenção. As cidades que conseguiram melhor controle da pandemia foram aquelas que “foram capazes de organizar e executar uma combinação de intervenções clássicas de saúde pública antes que a pandemia se espalhasse pela cidade.”


Para continuar essa análise, agora do ponto de vista econômico, Correia e colegas, economistas do Federal Reserve (Banco Central norte-americano), realizaram uma análise semelhante desses dados. Suas perguntas de pesquisa foram sobre o impacto econômico da pandemia sobre as cidades americanas, sua duração após a pandemia e o quanto as medidas de isolamento social afetaram a economia e a sua capacidade de recuperação. Os resultados são interessantes para a resolução do dilema.


Segundo suas análises do efeito da pandemia sobre a economia das cidades americanas, a pandemia produziu uma queda real e persistente da atividade econômica como uma “quase depressão”. O impacto na economia norte americana foi uma queda de 18% da produção industrial quando se compara 1914 e 1919. Mas esse efeito foi mais profundo e persistente nas cidades mais afetadas pela infecção.


As medidas de isolamento social mais severas além reduzirem a mortalidade tiveram um efeito econômico positivo: as cidades que foram mais rigorosas na sua atuação não experimentaram efeitos econômicos negativos a médio prazo e conseguiram uma retomada econômica mais vigorosa. Houve uma relação temporal em que ao adotar as medidas de controle 10 dias antes de outras cidades observaram um crescimento de 5% nos empregos na indústria depois da pandemia. Se o controle foi mais intenso esse crescimento chegou a 6,5%. Os autores concluem que qualquer medida que controle a pandemia é benéfica para a economia.



Como resolvemos essa questão?



A pandemia de coronavírus já provoca consequências econômicas. Isso é inevitável. Conforme afirma Emil Verner, um dos autores do estudo, a economia em tempos de pandemia não é uma economia normal por uma natural redução de gastos, consumo e investimentos.



"A pandemia em si é muito destrutiva para a economia; portanto, qualquer política que você possa usar que mitigue diretamente a gravidade da pandemia pode realmente ser benéfica para a economia."

Emil Verner



Ao olharmos os dados do passado, conforme as conclusões dos pesquisadores, reduzir o avanço da pandemia trará benefícios econômicos por reduzir os danos. A redução de perdas humanas garante uma retomada mais fácil da economia. Economistas da Universidade de Chicago estimam por exemplo que o isolamento social nos EUA pode resultar em um benefício econômico de 8 trilhões de dólares.


Obviamente não vivemos as mesma condições dos EUA do início do século e não sabemos como o contexto atual vai influenciar o resultado econômico hoje. O mundo está organizado de uma forma diferente hoje, as comunicações são mais rápidas, temos uma capacidade de resposta mundial diferente, mecanismos internacionais de intervenção que não existiam naquela época. Não podemos prever como isso interferirá na retomada econômica mundial. Outra diferença é que a epidemia de gripe afetou muito mais os homens jovens do que os idosos, diferente de agora. A maior parte da força de trabalho americana na época era masculina. A morte de um homem significava uma grande perda econômica para a família e para a cidade. A dinâmica da população e economia atual pode influenciar de forma inesperada o resultado econômico que teremos.


Mas uma coisa parece clara: é mais fácil dar a volta por cima se a pandemia for melhor controlada. Nossa ambivalência entre duas escolhas, controle da pandemia versus preservar a economia, pode não ser necessária. Pode existir uma terceira opção que inclua ações nos dois sentidos e medidas locais e mundiais para resolver a crise na economia, que é inevitável. Agora, além de discussões sobre como “achatar a curva” da pandemia economistas discutem como “mudar a curva” da economia.


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