• Luiz Carlos Oliveira Júnior

Educação médica: queremos formar mecânicos ou engenheiros?

Atualizado: Fev 24

Você tem um carro e ele estraga. A quem você recorre?


A um mecânico, que é o profissional treinado para fazer a manutenção e reparo de máquinas. Ele vai colocar seu carro para andar. Algumas peças talvez tenham que ser trocadas depois de um tempo para que ele continue funcionando como antes. Às vezes não vai ter muito como colocar seu carro como novo mas ele pode continuar andando, não do mesmo jeito mas pelo menos você vai conseguir tirar ele do lugar.


Mas se coloque em outra situação.


Imagine que você precise de uma outra solução para locomoção. Que você quisesse um carro que tivesse outras características não disponíveis nos carros atuais ou algo completamente diferente de uma carro. Imagine que você quisesse fazer um avanço tecnológico no seu carro adicionando alguma nova tecnologia. O profissional que você procuraria não seria um mecânico mas um engenheiro.


Os engenheiros são formados para aplicar e ampliar o conhecimento técnico, a ciência, de uma forma criativa e inovadora encontrando soluções novas para os problemas e desafios. Ele é o responsável por desenvolver e validar cientificamente processos, sistemas e materiais. O engenheiro é uma peça chave no desenvolvimento tecnológico de um país. Grande centros tecnológicos como a Caltech e MIT são prova disto.


Agora vamos trazer essa analogia para a medicina. A biologia e fisiologia são estudadas de forma mecanicista. Mecanicismo é até considerado um termo pejorativo algumas vezes. Os médicos são treinados para conhecer o funcionamento do corpo humano (fisiologia) e como ele entra em disfunção (patologia). Conhecem as partes que formam essa máquina (ciências morfológicas). Aprendem da mesma forma que um bom mecânico de carro a “escutar o ruído do motor” e descobrir onde está o defeito e depois tentar consertá-lo. Os médicos têm sua caixa de ferramentas, algumas químicas e outras mecânicas também. A lógica utilizada pelo médico é muito próxima da do mecânico. A educação médica forma os médicos assim. E é necessário já que essa é a primeira das funções da Medicina.


Agora, se o que desejamos é mais do que reparar o defeito? E se o que quisermos fosse aumentar a saúde? Ampliar a “performance” da biologia e produzir mais bem estar? Talvez precisemos de um “engenheiro”. Algum profissional da saúde que utilizasse uma outra lógica e que além de consertar e colocar o carro para funcionar de novo pudesse produzir mais bem-estar. Infelizmente você não vai encontrar por que não existe escola para formá-lo.


A educação médica hoje trabalha excessivamente com um viés negativo. De reparo do “defeito”. Esse é o foco de todas as disciplinas de uma escola de Medicina convencional. E não só delas. Esse é o modelo de quase todas as profissões da saúde. Existe um excessivo viés negativo na enfermagem, na psicologia, na fisioterapia… É o que é chamado muitas vezes de “modelo médico” e que recebe tantas críticas por não contribuir para uma “humanização” da saúde.


Esse modelo é tão forte que mesmo quando uma proposta pedagógica tenta apresentar o “normal” nas disciplinas sempre o faz “comparando” com a doença. Parece que o educador dentro da área da saúde só consegue ensinar como o corpo funciona mostrando o que acontece quando ele “não funciona”.


Existe um desejo explícito por felicidade e bem-estar em todas as pessoas. É uma das buscas fundamentais do ser humano. Para atender a essa necessidade de todas as pessoas é preciso criar uma nova visão de saúde, uma visão positiva e por consequência uma nova visão de educação. A Saúde ou Medicina Positiva já está em desenvolvimento. Elas são filhas da Psicologia Positiva, um movimento revolucionário que procura virar o jogo dentro da Psicologia, campo que abraçando o “modelo médico” tornou-se profundamente focado no déficit, no transtorno mental e nas disfunções da personalidade.


A Medicina Positiva tem como foco o desenvolvimento de bem-estar, de saúde plena tanto quanto possível no momento e apesar das doenças que acometam o indivíduo. Na Medicina Positiva acredita-se que o florescimento pode ser sempre atingido desenvolvendo novas oportunidades de felicidade, aproveitando e ampliando recursos internos e externos do indivíduo e da sua comunidade. Podemos dizer que é uma engenharia para construir saúde.


Para conseguir um viés positivo é necessário reorganizar toda a formação dos profissionais da saúde. Na verdade é preciso revirar de ponta cabeça como os cursos estão desenhados colocando habilidades e conhecimentos de desenvolvimento do bem-estar como força orientadora da formação. O estudo da patologia e das diversas enfermidades continuará a ser feito porque saber diagnosticar e tratar bem uma doença é obrigação mínima desse profissional. Colocando a doença como um dos obstáculos para alcançar o bem-estar (existem vários outros de ordem emocional, cultural, social e até econômico) colocamos o negativo na periferia e o positivo, conhecimentos e habilidades de construção de saúde, no centro. É uma verdadeira revolução copernicana do universo da educação médica.


Estamos em um tempo em que existem recursos tecnológicos e conhecimento para tentar essa revolução. Nosso tempo, com seus desafios de saúde gigantes, pede uma nova abordagem da saúde global que produza soluções inovadoras. Assim como precisamos de engenheiros que resolvam problemas na produção de alimentos, no transporte, na reorganização das cidades e até na tarefa de levar a humanidade além para outros planetas, está na hora de criarmos profissionais da saúde com visão de engenheiros e não apenas de mecânicos.


E precisamos saber educá-los para essa nova era.


0 comentário