Elementos para o estabelecimento de conexões virtuais significativas


Recentemente, na plataforma MEV Brasil, um questionamento muito atual foi abordado: como podemos manter uma conexão significativa, virtualmente?


Este e outros questionamentos que envolvem a utilização de tecnologias e comunicação na área da saúde têm sido analisados por diferentes profissionais, suscitando reflexões. A questão apresentada proporcionou-me um novo mergulho na “Teoria da Construção do Vínculo em Saúde”, de minha autoria. Revisitá-la fez emergirem as ideias que, na sequência, compartilho. Trata-se da exposição de elementos para o estabelecimento de conexões virtuais significativas.


Como um dos pilares da Medicina do Estilo de Vida, a conexão profissional-paciente amplia a potência das intervenções produtoras de mudanças de comportamentos, em direção aos hábitos saudáveis. Essa conexão, quando constitui vínculo, favorece o controle de doenças crônicas, reduz internações e o tempo de permanência hospitalar, além dos custos assistenciais. Por conseguinte, a conexão que potencializa o vínculo assume relevância para os indivíduos e sistemas.


Na medida em que a conexão considera o relacionamento como necessidade básica que dá suporte à autonomia, valoriza o reconhecimento e o respeito e impulsiona as competências dos pacientes, evidencia elementos da categoria que, na referida teoria, denominei “Cuidado em Ato”. Esta categoria trata de conceitos e subconceitos produtores de vínculo que podem orientar a atuação dos profissionais de saúde, mesmo quando a interação cuidadora acontece por meio virtual.


Tais conceitos e subconceitos derivaram do estudo do vínculo que foi examinado à luz das experiências e dos resultados que importam para o paciente, pressupondo que ele é o protagonista do cuidado e está no centro dos esforços dos atores dos sistemas de saúde. Assim, o vínculo, entre outros aspectos que não serão foco nesta abordagem, diz respeito à confiança que decorre das fortes relações - conexões profundas - estabelecidas, ao longo do tempo.


A confiança entre o profissional de saúde e o paciente, nas diferentes oportunidades de cuidado, resulta da articulação e da manifestação, por palavras, gestos e atitudes, de determinados conjuntos de atributos pessoais e técnicos e de uma forma de fazer. Assim, articulados e percebidos pelo paciente, os elementos do cuidado (em ato) podem produzir conexões potentes e vínculo, seja nos contatos presenciais ou virtuais, ainda que o último traga consigo desafios. Algumas dicas de como superá-los foram compartilhadas no texto publicado na Mev Brasil pela médica de família Mariana Daud.


Os elementos da categoria “Cuidado em Ato” foram expressados pela tríade “Ser”, “Saber” e “Fazer”, onde são discutidos a abertura para o diálogo, os atributos pessoais e técnicos e a orientação do cuidado, importantes para o estabelecimento de conexões cuidadoras significativas, inclusive por meio virtual. Vamos a eles:


- Abertura para o diálogo: quando o profissional de saúde e o paciente relacionam-se de forma verdadeira, cooperativa e afetuosa, são estabelecidas trocas de ideias produtivas, em que o profissional de saúde, por meio de questionamentos habilidosos e postura de escuta interessada, conduz o percurso do cuidado até a decisão compartilhada.


- Atributos pessoais: são valorizados pelo paciente a educação, a cordialidade, a delicadeza, a preocupação, o zelo e a atenção dos profissionais. O relacionamento pautado nestes atributos favorece a percepção, pelo paciente, do interesse genuíno do profissional de saúde pelo seu problema e pela sua pessoa, fortalecendo a confiança.


- Atributos técnicos: a relação de confiança é fortalecida pela percepção da competência do profissional de saúde. A abordagem minuciosa e profunda, além do respeito às escolhas do paciente contribuem para o relacionamento produtor de vínculo. O paciente sente-se seguro por suas conquistas, sejam de menor ou maior magnitude, alcançadas por meio do compartilhamento das melhores evidências científicas disponíveis para o enfrentamento do seu problema, examinadas e contextualizadas pelo profissional e pelo próprio paciente.


- Orientação do cuidado: o paciente atribui valor ao cuidado quando a abordagem realizada pelo profissional de saúde considera a integralidade, o histórico de vida e de adoecimentos, a prevenção de doenças e a promoção da saúde, além do acompanhamento do processo vivenciado, em direção às metas pactuadas.


Apresentados alguns dos elementos que constituem o vínculo, ressalto que eles contribuem para o estabelecimento de conexões significativas, sejam presenciais ou virtuais e que relacionam-se à qualidade da ação cuidadora. Colocá-los em prática e explicitá-los pode ampliar a potência do relacionamento profissional-paciente, independente do meio pelo qual o cuidado é viabilizado.


Não podemos negar as transformações complexas que estão em andamento nem negligenciar as implicações sistêmicas decorrentes delas. Mudanças culturais são desafiadoras e suas consequências para as populações devem ser amplamente discutidas. É importante, entretanto, a abertura para novas práticas e para o desenvolvimento de novas habilidades.


0 comentário