Estresse com coragem


Vivemos um período especialmente desafiador em escala global, que nos propõe a equilibrar necessidades pessoais e sociais por vezes conflitantes (saúde, liberdade, segurança e estabilidade financeira são algumas). É natural que aumente a percepção do estresse e suas repercussões disfuncionais. Neste texto, com perspectiva da Psicologia Positiva, proponho uma breve exposição ao que já é conhecido sobre este tópico.

Estresse é uma palavra que evoca sensação de dano e desperta comportamento de evitação para a maior parte das pessoas. Essa construção negativa de percebê-lo tem motivo: muitos reforços publicados com evidência científica, relatados por anos, com alcance popular, que associam estresse à aumento de mortalidade específica, especialmente cardiovascular, e geral.

Foi só em 2011 que um estudo publicado propôs uma nova abordagem para a compreensão do estresse. A pesquisa realizada na Universidade de Wisconsin-Madison acompanhou cerca de 30 mil adultos americanos por oito anos. Começou com as perguntas: quanto de estresse você vivenciou no último ano e - a pergunta que ampliou a perspectiva desse tema- se você acredita que estresse faz mal para sua saúde. Depois foram constatadas as mortes em registros públicos. Os resultados são claros e impressionantes: os indivíduos que relatam uma alta quantidade de estresse vivido e que têm a percepção de que o estresse afeta sua saúde estão em maior risco de mortalidade prematura (43%), evidenciando uma sinergia muito danosa. Ainda mais impressionante é o resultado dos indivíduos que relataram alta quantidade de estresse vivido, mas não acreditam que estresse causa dano a sua saúde: tiveram a menor taxa de mortalidade, menor inclusive que os indivíduos que relataram estresse moderado ou quase nenhum estresse vivido. Esses achados têm implicações significativas para as teorias de estresse e saúde. As hipóteses e resultados apoiam a noção de que a avaliação pessoal do estresse é crítica na determinação dos resultados.

Ainda em 2011 alguns pesquisadores teorizaram intervenções que pudessem mudar a maneira como pensamos sobre nossas respostas corporais para melhorar nossas reações fisiológicas e cognitivas a eventos estressantes. Participantes foram aleatoriamente designados para uma condição de reavaliação na qual foram instruídos a pensar em sua excitação fisiológica durante uma tarefa estressante como funcional e adaptativa, ou em 1 de 2 condições de controle: reorientação da atenção (distração) e nenhuma instrução. Em relação aos controles, os participantes instruídos a reavaliar sua excitação exibiram respostas mais adaptativas ao estresse cardiovascular - maior eficiência cardíaca e menor resistência vascular - e menor viés atencional por informações emocionalmente negativas. Pela intervenção, a excitação induzida por estresse passou a ter características fisiológicas compatíveis com percepção de alegria e coragem.

Evidências complementares e compatíveis com o impacto da crença nas repercussões de estresse agudo descrevem com detalhes a melhora da resposta fisiológica: o recrutamento imunológico mais rápido e eficiente, a diferenciação de células-tronco em novos neurônios, melhora de habilidades intelectuais, reforço de memória, ação anti-inflamatória e proteção cardiovascular por promoção de maior eficiência de ejeção, menor resistência vascular periférica e regeneração de fibras cardíacas em dano. O estresse gera um alerta com potencial para melhorar as condições orgânicas de lidar com desafios, mas precisamos ter consciência disso.

Gostaria de destacar uma capacitação de especial significado que acontece durante a experiência do estresse: a social. Um hormônio do estresse tão importante quanto a adrenalina – ocitocina - se manifesta para essa função e nos prepara para lidar melhor e recuperar mais rápido de eventos estressores. A ocitocina disponibiliza mais o indivíduo para estreitamento e fortalecimento de relações interpessoais, aumenta empatia, senso de apreciação e confiança, o que facilita um pedido de ajuda e a tendência a comportamentos de ajuda ao outro. Para potencializar os benefícios dessa construção pró-social, as evidências mostram que o comportamento de ajuda também melhora nossas respostas fisiológicas e prevê diminuição da mortalidade. Seria um mecanismo intrínseco poderoso de resiliência.

Reforço: o estresse pode ser uma oportunidade de amadurecimento, reavaliação de comportamento e escolhas, fortalecimento de saúde, coragem, alegria, conexão social eficaz e percepção de propósito.

Essas informações precisam ser conhecidas pelo máximo de pessoas possível, porque ampliam a percepção do estresse e repercutem diretamente em mortalidade. É importante perceber que não se anula de nenhuma forma o conhecimento existente do impacto negativo do estresse crônico, mas essa perspectiva do conhecimento é só uma parte do espectro, que merece ampliação. Se existem maneiras de lidar melhor com os desafios, então não precisamos evitá-los. Essa confiança realista nos coloca em posição favorável para fazer escolha pelos desafios que desejamos enfrentar, movidos por propósito, e para passar com saúde e união pelos desafios que não podemos evitar.


Referências:

Does the perception that stress affects health matter? The association with health and mortality.

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3374921/


Mind over matter: reappraising arousal improves cardiovascular and cognitive responses to stress.

https://www.researchgate.net/publication/51669640_Mind_Over_Matter_Reappraising_Arousal_Improves_Cardiovascular_and_Cognitive_Responses_to_Stress


Giving to others and the association between stress and mortality. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3780662/


Changing Stress Mindset Through Stressjam: A Virtual Reality Game Using Biofeedback. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6761591/


Researchers find out why some stress is good for you https://news.berkeley.edu/2013/04/16/researchers-find-out-why-some-stress-is-good-for-you/


Beliefs about Stress Attenuate the Relation Among Adverse Life Events, Perceived Distress, and Self-Control

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5837904/


7 ways stress does your mind and body good

https://ideas.ted.com/7-ways-stress-does-your-mind-and-body-good/


TED: How to make stress your friend https://www.ted.com/talks/kelly_mcgonigal_how_to_make_stress_your_friend?language=pt-br#t-792152



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