• Luiz Carlos Oliveira Júnior

Fetiches, comprimidos e o resgate da potência de curar-se

Fetiche em francês é feitiço. Feitiço é uma bruxaria, uma mágica ou ilusão, algo que engana. Também é coisa não natural, artificial, falso ou postiço. Fetiche dá origem na psicanálise de Freud ao fetichismo, hoje descrito nas classificações diagnósticas psiquiátricas como uma inadequação sexual, quando a única forma de atingir o prazer sexual é através de uma objeto inanimado, nunca com o corpo do outro ou próprio inteiro. Na psicanálise, fetichismo representa uma perversão, um desvio do meio de atingir o prazer, de satisfazer a libido. É perverso tudo aquilo que sai do trilho do destino ou finalidade normal. O fetiche é um objeto que substitui o falo, a representação da potência. Isso significa que o fetichista abriu mão de sua potência e da realização sexual por ela em favor desse substituto.


Aquilo que a psicanálise e a psiquiatria descrevem para o campo da vivência sexual podemos trazer para toda a esfera da vida. Assim podemos fazer do fetiche e do fetichismo um símbolo, uma metáfora. A metáfora da troca da potência própria pela crença ou esperança em uma potência externa. A criação de ferramentas é uma das nossas grandes vantagens evolutivas. Usamos tecnologia para nos ajudar a ter mais potência. Na sexualidade podemos usar os “brinquedos” para ampliar possibilidades de prazer. É a limitação a eles que cria a perversão. É a exclusividade que cria o fetiche. Quando transferimos à tecnologia a responsabilidade inteira por fazer o que só nós deveríamos fazer a ponto de esquecer como fazê-lo, criamos uma perversão da vida. Podemos dizer que hoje, em alguma dimensão, somos uma multidão de fetichistas. Gradativamente estamos transferindo aos objetos externos todas as nossas potências


Somos fetichistas também na saúde


A forma como a entendemos e lidamos com os cuidados para com ela é uma perversão. Quando as artes médicas nasceram, em tempos bem primitivos, provavelmente antes da estruturação de uma civilização, os homens confiavam ao próprio corpo e esforço a maior parte do trabalho de curar. O Corpus Hippocraticum, um dos primeiros frutos de uma organização fundamentada na racionalidade do conhecimento relacionado à saúde, é construído sobre o paradigma de que o corpo detém as causas da sua cura, que a doença vem do desequilíbrio, do mal viver, da nossa relação com o ambiente. As doenças, não sendo de responsabilidade dos deuses, também não eram curadas por eles. A saúde estava nas mãos dos homens e de suas escolhas. O médico deveria aprender a não atrapalhar os processos naturais e recomendar o que seria uma vida boa.


A história do mundo é sempre a mesma, mesmo na saúde. A “medicina moderna” descobriu com os medicamentos e procedimentos a possibilidade de experimentar também o fetichismo. O remédio, que deveria ser uma tecnologia para ampliar as possibilidades da saúde, se tornou a via exclusiva de tratamento. O viver bem, a correção das escolhas ruins e a antiga prescrição de “alimentos e movimentos”, tornaram-se secundários. A opção por esse fetiche é a norma na saúde. Médicos não acreditam que seus pacientes podem viver diferente e esses acreditam que não tem outra saída além das cápsulas e “stents”. O resultado final é que todos se sentem “brochas” quando o assunto é estilo de vida.


É preciso tratar o fetichismo. É preciso descobrir que um estilo de vida saudável tem potência e dá prazer. Aos poucos devolver a essa relação entre profissionais e pacientes um contato mais íntimo com aquilo que os dois têm por natureza: a capacidade de mudar.


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