Força de Vontade: não confie apenas nela


Responda com a primeira coisa que vier à cabeça: Porque as pessoas têm dificuldade de mudar? Novamente: Porque algumas pessoas conseguem mudar com mais facilidade que as outras?

Existe uma grande chance de que “força de vontade” tenha passado pela sua cabeça. O que grande parte das pessoas pensam quando se fala sobre mudar um comportamento ou hábito é que a peça chave é a força de vontade, chamada cientificamente de capacidade de autorregulação.


Entretanto, o que a ciência da mudança mostra é que não deveríamos confiar apenas nela. Pesquisadores têm repetidamente demonstrado que a força de vontade funciona mesmo como uma “força”, semelhante à força muscular. O psicólogo social Roy Baumeister, autor de Força de Vontade - a redescoberta do poder humano, conduziu diversos experimentos que mostraram que a força de vontade pode sofrer fadiga quando usada em excesso. Como acontece com um músculo, quanto mais usamos a força de vontade, resistindo a uma tentação, por exemplo, mais ela enfraquece. Usamos nossa força de vontade em cada decisão que tomamos. Considerando que fazemos milhares de escolhas todos os dias, é fácil entender que podemos chegar ao final do dia com muito pouco dessa força. E quanto mais estressantes as decisões e nosso dia, mais rápido esse desgaste. Isso explica porque chegamos à noite cansados e temos dificuldade de manter aquele plano alimentar que desejamos.


Então, o que fazer quando queremos mudar?


A mudança de um comportamento de forma permanente depende da manutenção dessa mudança até que ela se torne um hábito. Para aumentar as chances, devemos mobilizar outras estratégias. A ciência do comportamento mostra que somos influenciados por vários fatores externos e que nossa mudança na verdade depende de muito mais que nossa simples vontade. O comportamento humano é mais complexo do que imaginamos.

Além da nossa vontade e motivação precisamos incluir em nosso plano de mudança mais duas forças poderosas: a influência social e ambiental.


Força das conexões sociais


A Medicina do Estilo de Vida trabalha com as conexões sociais como um dos pilares para uma vida saudável. E não é apenas porque nosso bem estar mental depende disso. Somos influenciados pelas pessoas à nossa volta. Pesquisadores como Nicholas Christakis e James Fowler revelaram a força dessa influência mostrando que várias condições de saúde, como a obesidade, tem um comportamento de contágio. E essa influência tem alcance de 3 graus: o amigo do amigo do seu amigo pode afetar sua saúde. Esse efeito pode ser explicado por nossa necessidade de conformidade social. Os seres humanos são programados para buscar a aceitação do grupo, por isso aceitam as “normas” que observam à sua volta adotando hábitos alimentares e padrão de atividade física, por exemplo.



A Força do ambiente


Uma das revoluções da psicologia nas últimas décadas foi a descoberta de que somos mais irracionais do que pensamos. As decisões que tomamos todos os dias não são totalmente resultado de um processo consciente de deliberação. Usamos atalhos cognitivos, as heurísticas, que facilitam a tomada de decisão trazendo rapidez mas permitindo erros importantes. Essa descoberta, feita por psicólogos como Daniel Kahneman, resultou no nascimento da Economia Comportamental, um campo de pesquisa que gerou vários prêmios Nobel nos últimos anos.

Essa vulnerabilidade cognitiva permite que o comportamento seja influenciado fortemente por pistas externas. Através de sinais ambientais, palavras, disposição de objetos, manipulação do design, pode-se aumentar a chance de que as pessoas tomem uma decisão em determinada direção. O uso dessas estratégias recebeu o nome de arquitetura da escolha. Diversos governos têm usado dessa abordagem para influenciar as políticas públicas, inclusive na saúde.


As três forças da mudança


Na prática, quando queremos mudanças duradouras, devemos usar as três forças da mudança. Além da motivação pessoal e da força de vontade, devemos contar com as pessoas à nossa volta e construir um ambiente amigável à mudança que queremos:

  • Tenha clareza da mudança que você deseja e das razões para mudar. Quanto mais claro isso maior a motivação. Quais os benefícios de mudar? Quais as consequências de não mudar?

  • Construa uma rede social que sustente sua mudança conversando com seus amigos sobre seus objetivos específicos e como eles podem ajudar você a mudar

  • Organize seu ambiente de forma a dificultar os hábitos ruins e facilitar os bons. A regra é bem fácil: quanto mais distante, difícil e menos visível menos perigo oferece à sua mudança. Torne fácil as mudanças que você deseja.


Vamos aprender mais?


TED talk com Nicholas Christakis sobre a influência social sobre a saúde


TED talk com Sendhil Mullainathan sobre o uso da Economia comportamental em mudanças sociais.

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