• Luiz Carlos Oliveira Júnior

Gratidão: um bom e simples remédio

No coração das práticas religiosas milenares de todos os povos conhecidos, expresso em rituais, orações e canções, existe um elemento comum que se destaca e chama a atenção. Em todas elas agradecer é fundamental. É uma obrigação religiosa, um dever para com os seres transcendentes ou a natureza como provedores de benefícios. Expressar gratidão não é só bem visto mas é uma obrigação. A gratidão é considerada uma virtude e seu oposto, a ingratidão, o pior dos crimes para Hume, a raiz de toda vilania para Kant.


Fora do campo metafísico e ético, a gratidão foi até recentemente pouco estudada. Com o crescimento do interesse pelos aspectos positivos da vida mental, vários estudos começaram a mostrar que a saúde em diversas dimensões se beneficia muito da gratidão. Pessoas gratas alcançam maior longevidade e bem estar, tem melhores sistemas imunológicos, cuidam mais de si mesmas praticando mais atividade física. A gratidão melhora o sono, aumenta as emoções positivas como prazer e alegria. Até o sono se torna mais reparador..


O quê de tão especial tem a gratidão?


Gratidão é um sentimento. Tem duas dimensões, uma cognitiva e outra emocional. Essas duas dimensões são responsáveis pelos efeitos positivos para a saúde física e mental. O primeiro efeito cognitivo da gratidão está no reconhecimento da existência do bem no mundo, de que mesmo a realidade não sendo perfeita é fonte de momentos em que o bom surge, de que coisas boas acontecem. Agradecendo pelo que ocorre de bom na vida tornamos mais difícil a aceitação lógica de pensamentos automáticos de ruína e catastrofismo que nutrem tanto a depressão quanto a ansiedade. Daí a dimensão emocional da gratidão vem por consequência com essa nova forma de ver o mundo gerando mais emoções positivas e satisfação.


A gratidão nos obriga a olhar para fora de nós


Um aspecto da gratidão que damos pouca atenção é sua dimensão social. A gratidão é uma emoção social. Fomos dotados de gratidão provavelmente por que ela nos lembra que precisamos de laços sociais para sobreviver. A evolução deve ter dado essa ajuda com certeza.


A gratidão nos obriga a ver e reconhecer que o bem que ocorre em nossas vidas ocorre por intervenção de outras pessoas ou seres. A gratidão abre o indivíduo para o grupo, para o mundo. Ela gera um grande sentimento de humildade, de reconhecimento de nossas vulnerabilidades. E novamente contrariando crenças de incapacidade pessoal comuns nos transtornos mentais, o reconhecimento que a gratidão exige mostra que se não tenho recursos internos nas dificuldades da vida, posso contar com recursos externos que são oferecidos pelos outros.


A gratidão, ingratidão e a inveja


Olhar o outro como fonte de bem para minha vida é algo muito mais profundo que somente criar laços sociais mais fortes e emoções positivas. Existe uma dimensão existencial, de como vivemos e descrevemos nosso existir, da própria responsabilidade que temos de escolher nossos caminhos. Um dos textos mais importantes da psicanálise, Inveja e gratidão, de Melaine Klein, coloca a gratidão e a inveja como opostos. A inveja, segundo a psicanálise, nasce de uma incapacidade de “construir uma ideia de bondade”, da possibilidade de que algo/alguém possa conter o bem. Sem que isso exista fora, fica a dúvida se pode existir algo de bom dentro também. Ela gera uma espécie de raiva da realidade e voracidade que criam marcas profundas no existir por toda a vida. Por onde a inveja passa no inconsciente, cria insegurança, raiva, ansiedade e tristeza. E as ações motivadas por ela fazem grandes estragos no mundo.


A gratidão é o exercício de um existir diferente. É um contentar-se com tranquilidade de que o mundo pode oferecer algo de bom mas é incompleto. Por consequência, nós também podemos ser bons apesar de não sermos plenos. A gratidão permite uma existência em paz. A pessoa grata pode acreditar em si, pode acreditar nos outros. A gratidão é uma âncora no presente e no real que ajuda a não sermos arrastados pela correnteza da idealização e insatisfação que povoam nossos pensamentos sobre um futuro perfeito que há de vir e nunca vem. Ela nos faz agir no aqui e no agora com quem estamos do jeito que estamos e somos.


É possível “treinar” a gratidão


A gratidão é um bom remédio e uma boa prática preventiva. E pode ser tomada a partir de qualquer momento na vida com bons resultados. Os filósofos sempre viram a gratidão como virtude. E como virtude ela só existe sendo praticada e cada vez mais existe ao ser praticada. Começando a agradecer passo a ser grato.


Os estudos sobre gratidão publicados na literatura mostram intervenções bem sucedidas e muito simples de serem praticadas. A prática de gratidão mais avaliada nos estudos é o diário de gratidão: lembrar ao final do dia de 3 a 5 coisa boas que ocorreram naquele dia (o número varia muito e parece não fazer tanta diferença). Algumas variações sugerem que a pessoa estabeleça o quanto ela e outras pessoas tiveram participação naquele bem recebido. Nos trabalhos publicados é visto um bom efeito após 3 semanas de intervenção. Mas existem diversas outras práticas como fazer orações e meditação de gratidão, cartas e visitas para agradecer às pessoas que contribuíram com nossas vidas e exercitar o uso de expressões de gratidão durante o dia.


A gratidão é um bom e fácil remédio para muitos males. Mais uma vez nossos avós tem razão: um “por favor” e um “obrigado” são mesmo mágicos.


Obrigado por ler esse texto e me permitir cumprir minha missão de vida. Sem um leitor, o que seria de um escritor?

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