• Luiz Carlos Oliveira Júnior

Inteligência Emocional e liderança na MEV: como essas coisas se encontram?

Atualizado: Fev 24

A Medicina do Estilo de Vida apresenta uma abordagem de prática de saúde complexa se comparada àquela utilizada hoje. Ela adiciona à equação muito mais fatores ao considerar os determinantes comportamentais, culturais, sociais e econômicos das condições clínicas. Cria um demanda por habilidades específicas além das técnicas e científicas.


Em um célebre artigo de opinião publicado na JAMA em 2010, Lianov e Jhonson descrevem as competências para se “prescrever a Medicina do Estilo de Vida” particularmente na atenção básica. Entre essas competências destaca-se a liderança, não por acaso a primeira a ser enumerada pelos autores.


A liderança é uma questão central em todas as organizações humanas e dela depende em grande parte os resultados alcançados nos projetos humanos. Na saúde, não poderia ser diferente, a qualidade dos cuidados está associada às características da liderança.


Daniel Goleman, um dos maiores responsáveis por difundir o conceito da Inteligência Emocional (IE), originalmente descrito por Mayer, Salovey e Caruso, descreve 4 dimensões e 12 componentes. Todos eles considerados importantes para a boa liderança. Vejamos quais são essas dimensões e como elas fazem toda a diferença quando lideramos a gestão do estilo de vida.


Autoconsciência


A autoconsciência das emoções é a base de todas as outras habilidades emocionais. Aprender a perceber como seus próprios estados emocionais ocorrem, quais seus desencadeantes e como eles influenciam as suas escolhas e ações oferece grande capacidade de autocontrole. Mas é também ao desenvolver essa habilidade que podemos aplicá-la na avaliação e previsão do estado emocional das outras pessoas. Abre a possibilidade de entender os motivadores das escolhas pessoais de cada paciente, prevendo a partir das minhas próprias reações emocionais quais os caminhos que devemos seguir para ajudá-los a fazer a mudança.


Autogestão


A autogestão é formada por 4 componentes. O autocontrole é a capacidade de gerenciar as emoções e impulsos não permitindo reações explosivas ou desproporcionais em momentos de tensão. A adaptabilidade é a plasticidade do comportamento, a flexibilidade para agir sem ser capturado pelos estados emocionais intensos. Outro componente importante é a orientação para a realização que direciona a pessoa a buscar padrões mais elevados e aprendizado constante. Essa característica torna a pessoa aberta e desejosa de feedback e, por não temer a avaliação, imune à reações desagradáveis diante da crítica. Por último a tendência a uma percepção da realidade sob o ponto de vista positivo sempre buscando oportunidades dentro dos desafios. Isso aumenta em muito a resiliência ao estresse. Todas essas características da IE tem relevância quando o assunto é a mudança do estilo de vida. Elas aumentam a chance de que o paciente persista dentro dos planos que ele estabeleceu para sua saúde se adaptando às necessidades que a vida vai colocando.


Consciência social


A consciência social é a dimensão que engloba a empatia e a consciência organizacional. A empatia coloca a capacidade de entender as emoções dos indivíduos em sua perspectiva. A consciência organizacional dá uma leitura das organizações pela perspectiva das redes de interação entre os indivíduos e as relações de poder que se estabelecem no grupo. Essa é a dimensão que permite ao profissional da saúde ampliar sua visão e atuação. Vendo-se como parte da rede de cuidado e não como um ponto isolado, pode encontrar novos recursos e aliados para promover e sustentar as mudanças necessárias para um projeto de saúde. A prática de saúde, apesar de frequentemente ser em equipe, muitas das vezes é percebida como solitária. Ter consciência social muda o jogo.


Gestão das relações


É na gestão dos relacionamentos que o líder emocionalmente inteligente mostra suas maiores qualidades. Utilizando todas as demais dimensões da IE, o líder pode ser um mestre na arte de ajudar sua equipe a desenvolver engajamento e motivação para perseguir um ideal. Ele usa das competências em influência para inspirar o grupo nesta direção mas também é capaz de gerenciar os conflitos que normalmente ocorrem e fornecer o suporte para a criação de um ambiente de aprendizado constante. Um serviço de saúde é complexo em termos relacionais e a habilidade de gerenciar as relações é um grande trunfo quando a mudança é necessária.


Líderes emocionalmente inteligentes da MEV


Essas dimensões oferecem um guia para o desenvolvimento de lideranças mais eficazes na saúde. São habilidades que podem ser treinadas. A literatura sobre a liderança repetidamente destaca a importância do desenvolvimento de líderes com alta inteligência emocional (IE). A capacidade de entender, julgar e manejar emoções é cara e muito desejável na saúde. É mais necessária ainda nos serviços que utilizam a abordagem da MEV pelo intenso e mais íntimo contato com questões afetivas e comportamentais envolvidas no processo de cuidado. A MEV não é uma proposta fácil. Isso é inegável. Ela é desafiadora justamente porque “complica” bem mais a visão dos serviços e profissionais de saúde. A MEV é um convite à saída da zona de conforto do modelo saúde-doença adotado pela medicina convencional. Esse tipo de transformação só ocorre pela criação de um espírito de liderança nos profissionais envolvidos. Só com líderes emocionalmente inteligentes, capazes de fazer os pacientes e profissionais de saúde sonhar com uma prática diferente é que faremos a mudança que desejamos.



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