• Luiz Carlos Oliveira Júnior

Melatonina: mais poderosa do que você pensa

Atualizado: Fev 24

A melatonina é um hormônio bem conhecido por todo o público como “hormônio do sono”. Quando vemos essa expressão pode parecer que a única função dela é colocar todo mundo na cama e fazer dormir. Ainda mais quando ela é vendida como “suplemento para insônia”. Mas ela é bem mais do que isso. Seus poderes sobre o nosso corpo são muito maiores do que pensamos.


Antioxidante


A melatonina é encontrada na história evolutiva desde as bactérias, passando pelas plantas até chegar aos animais ganhando cada vez mais funções. Seguir sua história é uma viagem às origens da vida há 2,5 bilhões de anos atrás. Acredita-se que sua história começa nas alfa-proteobactérias e cianobactérias que, segundo a teoria endosimbiótica, se tornaram respectivamente a mitocôndria e o cloroplasto, ambas organelas celulares que produzem a energia das células. Nestas organelas a melatonina tem uma função bem diferente do sono. Ela é antioxidante que protege a célula dos radicais livres produzidos no metabolismo aeróbico,que consome o oxigênio, e na fotossíntese que o produz.


Além de sua função direta como antioxidante ela, como hormônio, modula positivamente enzimas antioxidantes como a superóxido dismutase, catalase, glutationa peroxidase e negativamente enzimas pró-oxidantes como óxido nítrico sintase, mieloperoxidase e eosinophil peroxidase.


Assim a melatonina faz dormir e protege contra os efeitos da radiação ionizante, estresse oxidativo da reperfusão após uma isquemia e a toxicidade por metais pesados, drogas e álcool.


Modulador Imunológico


A melatonina também está envolvida na modulação do sistema imunológicos, às vezes com ações estimuladoras da função imune, outras com função anti inflamatória. Os receptores de melatonina foram encontrados em células do sistema imunológico e vários experimentos demonstraram que ela pode estimular a produção destas células e a liberação de citocinas. Foram observadas a redução de TNF-a, IL6, IL-8, IL-12 por exemplo, que são citocinas inflamatórias. Ela parece ter também funções anti-virais, antibióticas e anti-parasitárias. Acredita-se que ela seja moduladoras das função imunológica, como em um sistema tampão, agindo como imunoestimulante em situações basais e com função anti inflamatória quando o organismo está enfrentando um processo inflamatório severo.


Mestra do ritmo circadiano e do metabolismo


A melatonina é a mais importante reguladora interna do ritmo circadiano. Ela age sobre os ritmos biológicos desde o nível genético até o sistêmico. O ritmo celular é dado por uma alça de feedback gerada pelos genes do relógio que são fatores de transcrição expressos de forma periódica e que influenciam a transcrição de vários outros genes. A expressão desses genes do relógio é influenciada pela melatonina liberada pela glândula pineal. Ela regula a liberação do hormônio TSH, que regula a função da tireóide e por consequência do metabolismo. A melatonina aumenta a produção de TSH.


No metabolismo energético ela tem efeitos importantes. Ao ser liberada à noite a melatonina provoca um aumento de resistência à insulina, reduzindo a sensibilidade das células à sua ação e a produção de insulina. Mas durante o dia o efeito será o contrário, reduzindo a sensibilidade à insulina. Isso parece explicar porque a privação do sono crônica aumenta o risco de Diabetes tipo 2.


Anticâncer?


A privação de sono está associada estatisticamente à maior risco de câncer. A falta de melatonina pode dar uma explicação para isso. Estudos experimentais mostraram que a melatonina tem efeito redutor da proliferação de células tumorais. Outra possível ação que auxiliaria no efeito oncostático seria a redução da angiogênese, a produção dos vasos sanguìneos que alimentam o crescimento tumoral, pela ação dela sobre o fator de crescimento vascular endotelial (VEGF).


Múltiplas funções, algumas dúvidas


As funções da melatonina são muitas. Ela tem um papel fundamental em toda a fisiologia. Isso deveria ser preocupante considerando que o consumo dela é tão comum. O mercado global de melatonina, que propaga seu uso como suplemento para o sono, foi de 700 milhões de dólares em 2018 mas considerando a epidemia de sono ruim no mundo deve atingir 2,7 bilhões em 2025. Muito pouco se sabe sobre quais os efeitos da reposição crônica da melatonina e todos os efeitos colaterais que pode provocar.


A curto prazo parece ser uma medicação segura desde que usada em doses adequadas e, muito importante, respeitando o ritmo circadiano e o cronotipo de cada pessoa.


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