• Luiz Carlos Oliveira Júnior

Metas mais que SMART

Todos nós desejamos alcançar algum objetivo em nossas vidas. Queremos fazer alguma mudança. Uma das formas mais utilizadas para tentar chegar nesses objetivos é determinar metas. Ouvimos muito dizer que a construção de metas é essencial. Mas é fácil perceber que estabelecer uma meta não garante sucesso. Elas podem contribuir mas não fazem milagres. É preciso conhecer o efeito das metas para aproveitá-las melhor.


As metas têm um papel muito específico no processo de mudança. Elas são parte de um mecanismo maior. Para entender como elas se encaixam nesse mecanismo precisamos recorrer à teoria da determinação de metas. Esta teoria, descrita por Locke e Latham, explica qual o lugar das metas e seu real poder. Com ela sabemos o que devemos esperar de uma meta quando estabelecemos uma.


Primeiro, Locke e Latham nos lembram que ter metas é algo intrínseco da vida. Um ser vivo sempre tem uma meta mesmo que sem clareza dela, por que a vida é proposital. Determinar uma meta é exercer o poder de escolha que temos para condicionar a vida à nossa vontade. Segundo essa teoria as metas exercem 4 efeitos sobre o comportamento que explicam por que elas podem ajudar a chegar onde queremos:


  • direção e foco - as metas dão uma direção para o comportamento, orientando as ações rumo àquele objetivo, concentrando as ações e diminuindo o risco de distração.

  • ativação de recursos - uma meta mobiliza recursos específicos, conhecimentos e habilidades que serão usados para alcançar o resultado.

  • persistência - o comprometimento com uma meta cria uma motivação sustentada pelo período em que o resultado é perseguido.

  • estratégia - ao estabelecer uma meta começamos a criar um plano, desenhar um processo que garanta chegar até sua realização.


Esses 4 mecanismos guardam o poder motivador das metas. Ele se resume a dirigir toda a ação, atenção e recursos necessários, por tempo suficiente, dentro de uma estratégia específica até que o resultado seja alcançado. Sem a organização de todos esses quatro fatores, por mais desejo que se tenha, o resultado não será alcançado. O conteúdo da meta (se ela foi formulada adequadamente ou não) é só parte do processo. O estabelecimento da estratégia é o mais importante.


A teoria de determinação de metas ainda demonstrou alguns efeitos muito interessantes das metas sobre o desempenho. As metas aumentam a performance ou a probabilidade de atingir um resultado esperado de forma proporcional à dificuldade. Isso indica que quanto mais desafiadora uma meta mais poder ela tem de motivar. Mas, com uma observação importante: dentro do limite das habilidades.

Outra conclusão importante desta teoria é o efeito da especificidade. Quanto mais específica uma meta melhor o resultado. A razão disto é a eliminação da ambivalência. Metas que deixam dúvida, que não são claras o suficiente, permitem a dispersão da energia motivacional. A meta tem a função de dar certeza, de demarcar o caminho a ser seguido. Uma meta de saúde não deve ser estabelecida em termos pouco claros como “desejo ser mais ativo” ou “desejo ser mais saudável”. Uma boa meta dá o destino do caminho: “desejo caminhar 3 vezes por semana durante 1 horas nos próximos 6 meses”.


O tipo de meta escolhida também tem seu efeito. A teoria fala sobre 3 tipos de meta: de resultado, performance e processo. Enquanto a meta de resultado é clara e diz respeito ao objetivo final desejado, as metas de performance e processo são ligadas a nível de desempenho e aprendizado de uma tarefa. O que foi descoberto sobre o efeito do tipo de meta é que focar em metas de aprendizado leva com mais facilidade a um bom resultado do que utilizando uma meta dirigida a esse mesmo resultado.


O que isso significa na prática?


Na prática clínica as repercussões são importantes. Os profissionais de saúde estão constantemente trabalhando com seus pacientes acerca de seus desejos de saúde, suas metas para uma vida mais feliz. Assistem o tempo todo metas sendo estabelecidas. Com esse conhecimento podem ajudar seus pacientes a desenhar melhor o caminho de mudança ajudando a ter clareza do significado da meta e dos recursos que deverão ser mobilizados, reforçando e sustentando o comprometimento.


Talvez uma das informações mais importantes da ciência das metas que pode ser levada para dentro do consultório é o papel das habilidades como moderadoras do poder das metas. Muitas vezes uma meta não é alcançada por falta de um conhecimento chave. Quando um paciente não consegue fazer uma mudança em seu estilo de vida, a culpa pode não ser da falta de força de vontade mas da ausência de uma habilidade. Na prática de saúde devemos deixar de nos questionar sobre o que fazer para motivar nossos pacientes e passar a perguntar o que eles precisam aprender para enfrentar o desafio. O que eles não sabem que, se soubessem, alcançariam a meta?


O mesmo vale para os profissionais da saúde: que habilidades AINDA não temos que se tivermos mudaremos nossa prática?

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