Metta: amor e compaixão protegerão você…

Atualizado: Fev 24

Nos últimos anos o desconhecido termo mindfulness ganhou domínio público e a meditação saiu do status de prática alternativa para o de terapia baseada em evidência. Um grande número de estudos, desde que Kabat-Zinn iniciou o primeiro programa clínico baseado na abordagem em 1979, demonstra que intervenções baseadas em mindfulness são úteis em diversas situações clínicas reduzindo sintomas de transtornos ligados ao estresse, ansiedade e depressão sendo capaz até de influenciar a função imune. Ela se tornou base para diversas intervenções em que o objetivo é o desenvolvimento da autoconsciência sobre o comportamento.


Mindfulness é traduzida na língua portuguesa como “atenção plena”, uma atitude de atenção aberta e sem crítica a todos os conteúdos que surgem na consciência,uma observação dos estados mentais como surgem. Na definição de Kabat-Zinn:


A consciência que surge quando prestamos atenção, com propósito, no aqui e agora sem julgamentos.

A mindfulness pode ter se tornado quase sinônimo de meditação mas há muitos outros pratos no cardápio. A observação atenta da realidade é uma das técnicas de meditar desenvolvidas a partir das práticas tradicionais budistas. Outras formas de meditação foram estudadas e demonstraram também utilidade na prática clínica. É o caso das meditações baseadas em amor e compaixão como a Metta.


Metta é uma prática meditativa tradicional do budismo em que o foco central é a produção intencional de um estado mental de bondade amorosa dirigida ao meditador e a outras pessoas. Isso é alcançado através da repetição mental de frases desejando bondade a diversas pessoas como “que ela alcance a felicidade, a paz e esteja livre do sofrimento”, acompanhada da emoção autoinduzida de amor por aquela pessoa.


Na filosofia budista Metta faz parte de estados de pensamento chamados pela tradição de “quatro imensuráveis”: bondade amorosa, compaixão, alegria empática e equanimidade. Cada uma dessas atitudes seria o antídoto contra estados mentais nocivos como raiva, inveja e ódio. Os estudos que compararam o efeito cerebral dessas prática indicam que elas podem mesmo ter efeitos diferentes entre si e até em comparação com a mindfulness. Isso amplia muito as possibilidades de uso clínico. O constructo dos “quatro imensuráveis” pode ser até mensurável pelo instrumento validado construído por Kraus e Sears chamado escala SOFI (Self-Other Four Immeasurables).


A meditação de bondade-amorosa demonstrou ser efetiva no aumento das emoções positivas. As emoções positivas são um dos pilares do modelo PERMA de florescimento e felicidade estudado na Psicologia positiva. Meditadores experientes desta prática submetidos a avaliação por neuroimagem mostram aumento em regiões corticais relacionadas ao controle emocional, humor e empatia como o giro parahipocampal posterior. Mas ela parece ter efeito mesmo em praticantes iniciantes. Um estudo comparando uma intervenção de 12 semanas de mindfulness com a meditação de bondade-amorosa sugeriu uma desaceleração do encurtamento dos telômeros entre os praticantes de metta não visto no grupo de mindfulness e controle sugerindo que ela é efetiva mesmo em curto prazo para modificar um dos mais estudados marcadores de envelhecimento celular.


Uma das áreas em que a meditação da bondade-amorosa pode ser mais interessante é o manejo do estresse, principalmente entre profissionais da saúde. A síndrome de burnout ou esgotamento da compaixão, é um problema sério considerado pela Organização Mundial da Saúde como um dos desafios globais para a próxima década. A meditação de bondade-amorosa produz um estado de empatia ampliada que protege o profissional da saúde do estresse aumentando sua resiliência e capacidade de compaixão. Ela pode surgir como uma forma de intervenção preventiva nos serviços de saúde.


Como praticar Metta


A prática de meditação da bondade-amorosa é simples. A ideia é focar a atenção na produção intencional dos sentimentos de amor e bondade dirigidos a uma pessoa específica e para si mesmo através da repetição silenciosa de frases escolhidas livremente. A tradição orienta que o praticante comece dirigindo esse sentimento a ele mesmo, depois para pessoas que ele ama seguidas daquelas neutras passando depois para alguém que tenha alguma dificuldade atualmente e finalmente para todo o mundo, incluindo todos os seres vivos. Iniciar a meditação dirigindo amor ao próprio praticante é visto como mais fácil inicialmente mas pessoas com problemas de autoestima importantes podem ser orientadas a iniciar dirigindo as frases para as outras pessoas e por último voltar para si mesmo. Não é necessário um tempo longo para a prática pois os estudos já mostram efeito com 10 minutos.


Vamos lá?


Escolha um local calmo e fique em posição confortável que pode ser sentada ou deitada. Tradicionalmente a prática meditativa é feita sentada e até caminhando para não correr o risco de dormir. Acalme-se respirando profunda e ritmicamente. Traga a pessoa à qual você dedicará atenção naquele momento à sua mente imaginando-a com uma face tranquila ou alegre tentando sentir que você está mesmo na presença dela. Repita mentalmente por várias frases dirigidas a ela com desejos de amor, paz, saúde e tranquilidade como sugerido abaixo:


Que (nome da pessoa) seja feliz…

Que (nome da pessoa) tenha saúde…

Que (nome da pessoa) viva com tranquilidade…

Que (nome da pessoa) tenha paz...


Escolha as pessoas pela ordem indo de você, passando pelas pessoas que ama, aquelas com as quais vive uma dificuldade atualmente até alcançar todo o mundo. Observe o que acontece com você ao fazer isso. Perceba o que muda nos seus sentimentos.


Experimente amar


Se você tem a meta de viver melhor e de forma mais positiva a prática da bondade-amorosa pode te ajudar. E pode ser uma ferramenta interessante para ser utilizada na prática clínica em pacientes submetidos a estresse, ansiedade e depressão.


Experimente! Amar também cura!


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