• Luiz Carlos Oliveira Júnior

Não é só um ronco!

Atualizado: Fev 24

Ainda está só no meio da tarde, você ainda tem muito trabalho pela frente mas está difícil ficar acordado…

Está em uma reunião e os olhos já estão pesados…

Entrou no táxi e mal começou a corrida você já está caindo no sono…

Ligou a televisão… já era…

A memória? O quê? Onde?

Dá até medo de dirigir com esse sono...


É horrível demais quando não conseguimos dormir uma boa noite de sono. Agora, imagine não dormir nunca uma boa noite de sono por anos seguidos? O que acontece?


Maior risco de hipertensão, de infarto agudo do miocárdio, de um acidente vascular cerebral, arritmias, insuficiência cardíaca, diabetes, acidente de trânsito… ou seja, maior risco de morte precoce.


Infelizmente a causa disso é comum e pouco diagnosticada. A Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) pode ser a causa desses sintomas e um fator de risco para todas aquelas condições para uma grande parcela da população que pode chegar a 23% das mulheres e 49% dos homens dependendo da idade. Mas pelo menos 14% da população sofre com esse problema. É alarmante não acha?


A SAOS é causada pela obstrução das vias aéreas durante o sono como resultado do próprio relaxamento muscular, principalmente da língua. Essa obstrução provoca hipóxia, ronco e despertares múltiplos que fragmentam o sono não permitindo que ele tenha eficácia suficiente. A pessoa experimenta então todos os riscos e consequências de uma privação de sono crônica com piora importante da qualidade de vida e risco aumentado de morte.


Várias doenças crônicas estão associadas à SAOS. O risco de fibrilação atrial é 4 vezes maior nas pessoas com apneia, que tem também 2,3 mais risco de depressão. O risco de um acidente vascular cerebral pode ser de até 4,3 vezes e de diabetes até 2,6 vezes.


Os fatores de risco mais importantes para a SAOS são a obesidade, a idade e o sexo masculino. O homem tem um risco 3 vezes maior de apneia do sono que a mulher. A obesidade está duplamente associada pois é tanto um fator de risco para a sua ocorrência quanto pode ser agravada por ela. O aumento de peso de 10% aumenta em 6 vezes o risco da apnéia passar de moderada a grave. Por outro lado a hipóxia e despertares noturnos prejudicando o sono são responsáveis por alterações do metabolismo e do controle do apetite agravando o ganho de peso.


Os tratamentos disponíveis hoje para a SAOS são considerados eficazes. O uso de pressão de ar positiva nas vias aéreas, o CPAP, demonstra eficácia em reduzir o risco de problemas cardíacos e hipertensão além da melhora da cognição e qualidade de vida.


Apesar de todas essas repercussões a SAOS não é tão considerada no diagnóstico diferencial e como comorbidade na prática clínica. A avaliação da saúde do sono com maior frequência por todos os profissionais da saúde, com investigação do dos hábitos e qualidade de sono dos pacientes, é de grande importância para aumentar a possibilidade de diagnóstico. Considere como sinais de alerta para investigar melhor o risco de SAOS os seguintes sintomas:


  • Insônia intermediária e final

  • fragmentação de sono

  • sonolência diurna

  • ronco


Quando associados aos sintomas ou comorbidades mais comuns em pacientes homens ou idosos considere a avaliação por polissonografia, que é o exame padrão-ouro para diagnóstico. Em pacientes com esse perfil questionários como a Escala de Epworth e STOP-BANG, construídos e validados para esse fim, são muito úteis para fazer a triagem dos pacientes que precisam ser avaliados no laboratório do sono.


O sono é o alicerce do estilo de vida saudável. Ele não pode ser negligenciado. Os danos causados pela má qualidade do sono justificam uma maior atenção à esse aspecto da saúde. A SAOS é muito mais frequente que o imaginado e deve ser tratada com atenção. A prescrição de medicamentos indutores de sono, que muitas vezes é solicitado pelos pacientes com apneia devido à insônia, pode agravar a apneia e ser fatal.


Lembre-se: pode não ser apenas um ronco inocente...



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