• Luiz Carlos Oliveira Júnior

Normose, a banalidade do mal e as péssimas escolhas de vida

Atualizado: Fev 24

Em 1963 Adolf Eichmann, um funcionário da burocracia nazista envolvido na “solução final” que exterminou milhões de judeus na Europa, foi julgado em Israel. A revista americana New Yorker enviou como correspondente para acompanhar o julgamento a filósofa Hannah Arendt. Judia alemã mas residente nos EUA devido ao nazismo, Hannah Arendt construiu uma importante obra sobre o totalitarismo e a partir dessa tarefa jornalística escreveu o livro “Eichmann em Jerusalém”. Esperando encontrar um monstro, pelo contrário, encontrou um homem comum, até medíocre. Eichmann dizia apenas obedecer ordens, fazer o que era necessário para conquistar o seu lugar naquela sociedade. Cumpria o que se esperava dele, sem questionar o certo e errado daquilo. Hannah Arendt se espantou com tamanha incapacidade de pensar e a facilidade com que o mal pode ser considerado comum, normal em uma época. Chamou isso de “banalidade do mal”, criada pela normalização que vem da ausência de pensamento, de profundidade. Em suas palavras:


“A minha opinião é de que o mal nunca é radical. É apenas extremo e não possui profundidade e nem qualquer dimensão demoníaca. Ele pode cobrir e deteriorar o mundo inteiro precisamente porque se espalha como um fungo na superfície. Essa é sua banalidade.”


A normalização do mal e do perigo não é algo exclusivo de crimes e atrocidades como o nazismo. Convivemos com o mal de forma cotidiana em grandes e pequenas proporções sem nos espantar ou até nos incomodar. Para tratar dessa condição marcante em nossa época os pensadores Pierre Weil, Roberto Crema e Jean-Yves Leloup criaram o termo “normose”. Assim como a psicologia descreve a neurose e a psicose, a normose figuraria como uma das formas de vivenciar a realidade e sofrer no mundo. Normose, de acordo com esses autores, seria a condição em que normas, conceitos, hábitos e comportamentos geradores de grande sofrimento e até morte sejam considerados normais. Mesmo sendo doentes, esses comportamentos são aceitos socialmente, banalizados, fazendo com que os indivíduos não tenham mais consciência do caráter letal de suas ações.


As grandes manifestações da normose são fáceis de reconhecer, como as guerras, tidas como legais e justificáveis socialmente mas que não passam de violência sem sentido. Outras, as mais frequentes, não são percebidas por todos. São as normoses do cotidiano, das escolhas de vida que nos adoecem e mesmo assim continuamos a optar por elas sem nos aperceber que se tratam de violências também.


Consideramos normal até certo ponto o consumo de álcool e tabaco apesar da morbidade e mortalidade que se associam ao seu uso. Vemos como normal o consumo exagerado de refrigerantes e doces que aumentam o risco de doenças crônicas e milhares de mortes anualmente. Não nos preocupamos com o exagerado consumo de carne nas últimas décadas aumentando o risco de câncer, diabetes e doenças do coração que matam outros milhões de pessoas produzindo tanto sofrimento. Muito menos nos horrorizamos com o fato de que para sustentar esse consumo banalizado de carne, não somente para alimentação mas também para pura diversão, construímos um sistema de criação e morte de animais em grande escala.


Também não paramos um segundo para pensar que a competitividade da nossa sociedade não faz o menor sentido e que a cooperação daria muito mais resultados para a humanidade potencializando os talentos e reduzindo o estresse. Achamos normal que a vida no trabalho se pareça com uma luta na selva e que o principal predador do homem seja ele mesmo. Toleramos desigualdades sociais com muita naturalidade e desviamos o olhar da injustiça que é a diferença de remuneração entre os gêneros. Não ficamos tão escandalizados como deveríamos com diferenças visíveis de tratamento entre as pessoas com base em diferenças econômicas e sociais. É normal e bem aceito hoje que as pessoas valham o quanto ganham e que a cor do cartão de crédito determine seu lugar no mundo a despeito de quanto isso pareça inadequado em uma sociedade democrática.


Normalmente fazemos críticas superficiais ao sistema educacional que não discute questões verdadeiramente fundamentais e importantes para o futuro das crianças e jovens, aquelas verdadeiramente determinantes de uma boa vida como o desenvolvimento de virtudes, controle emocional, cuidado com a saúde, pensamento crítico. Assumimos ser normal que esse não seja o papel da escola apesar dos problemas futuros que virão em decorrência de uma educação incompleta. Em seguida acharemos novamente normal que pessoas ocupem a vida inteira em um trabalho sem sentido nenhum para elas desde que consigam pagar suas contas por que também achamos absolutamente banal o fato de que grande parte das pessoas não leve muito a sério a importância de se descobrir o propósito pessoal de sua vida.


A normose é a “normalidade doente” da qual participamos por que “precisamos” fazer parte da sociedade que vivemos. Bebemos e comemos bebidas e alimentos danosos por que todos bebem e comem. E se não os comemos e bebemos ficamos “de fora”, temos que vencer as críticas ou os questionamentos dos nossos pares. Essa é uma das grandes dificuldades para quem se propõe a fazer mudanças no estilo de vida para criar bem-estar. Para escapar da perigosa normose precisamos despertar para a letalidade das nossas escolhas.


A Medicina do Estilo de Vida tem como um de seus fundamentos o despertar para a necessidade de boas escolhas, para a mudança do seu conceito de normal e saúde para que não ajamos com nossas vidas como autômatos, levados pelo fluxo dos maus hábitos. A proposta da MEV é de uma avaliação profunda da forma de viver para viver bem. Nas palavras de Hannah Arendt “apenas o bem tem profundidade e pode ser radical”.

0 comentário

Posts recentes

Ver tudo