• Luiz Carlos Oliveira Júnior

O cachorro, o rabo e a bola: metáforas para a liberdade de mudar

Atualizado: Fev 24

Adoro usar metáforas nos meus atendimentos. Sou viciado nelas. Algumas vezes é a única forma de mostrar para o paciente coisas difíceis de explicar, como os processos mentais por trás das nossas escolhas ou problemas psicológicos. Elas oferecem concretude para ideias muito abstratas, modelos de pensamento simples de usar e que mudam a forma de pensar de maneira muito rápida. E elas podem ir na raiz da questão. Com elas você fala de coisas muito difíceis de forma divertida.


Vou dar um exemplo.


Um processo mental normal da nossa mente é a fusão com nossos pensamentos. Na Teoria do Enquadramento Relacional, a teoria que sustenta a Terapia e o Coaching de Aceitação e Compromisso (ACT – acceptance and commitment therapy), entendemos que é da natureza da mente considerar que tudo o que está no pensamento é real. A mente foi feita para prever e resolver problemas através da imaginação. Tudo que surge na mente é tratado a princípio como um objeto real. Ou seja, levamos a sério tudo o que pensamos. Esse processo é chamado na ACT de fusão. Nos misturamos aos nossos pensamentos, confundindo o que pensamos com o mundo real e até mesmo o que pensamos de nós com o que somos de verdade (isso é chamado na ACT de “eu-conceitual”).


Se isso é normal por que é um problema?


Quando enfrentamos um desafio tentamos resolver isso mentalmente antes de agir no mundo real lidando com o “objeto” primeiro na mente. Se o pensamento que temos é sobre uma situação que no mundo real oferece perigo real, nós sentiremos temor e medo, direcionaremos nossos recursos mentais para evitar ou enfrentar o perigo dependendo do tamanho da ameaça. E enquanto o problema não for resolvido ele ficará na “pauta do dia”. Você já experimentou isso quando ficou muito preocupado com alguma coisa e não conseguia tirar o assunto da cabeça. E sentiu medo, teve dificuldade de dormir, etc... Normal, acontece com todo mundo. Ficamos presos em um movimento circular tentando resolver aquilo.


Esse processo está por trás de vários problemas. Entre eles os transtornos de ansiedade e depressão. Ele causa sofrimento quando não temos consciência dele e da forma de sair desse modo automático da mente. Sim, tem jeito de sair disso. Chamamos esse processo na ACT de de-fusão ou desfusão (esses termos ainda não tem uma boa tradução no português). Podemos perceber esse processo que nos prende em um movimento circular e passar a tratar tudo aquilo que está na mente só como pensamento. É dar um passo atrás e observar se estamos perseguindo algo real. Depois disso temos a escolha de continuar ou não perseguindo esse pensamento ou se é melhor e mais produtivo dirigir nossa atenção para outra coisa, no caso nossos bens maiores, os valores. Isso em ACT é “ação comprometida” com os valores e não com os pensamentos.


E onde entra a metáfora?


Bom, não é muito fácil entender isso que expliquei acima (você entendeu?). Eu gastei anos estudando e praticando ACT até que a ficha caiu. Mas com uma imagem é mais fácil. Ela entra no cérebro como um aplicativo e passa a trabalhar. A verdade é que não precisamos entender intelectualmente uma coisa para ela ter efeito. Ela tem que fazer sentido e funcionar. Isto em ACT é chamado de workability mas como “trabalhabilidade” é um termo pouco usado em português, “funcionar” funciona melhor.


Veja então como eu lido com essa situação na prática para ajudar um paciente a sair da fusão e fazer melhores escolhas.


Preparando o terreno...

A verdade é que muitas vezes nós estamos presos em nossos pensamentos sobre o passado e o futuro. Que são só pensamentos. Eles são parte de nós mas não são nossa realidade inteira. Ficamos tristes ou com medo deles. Acabamos presos...


Agora a metáfora...

É como um cachorro que está correndo atrás do rabo. Ele persegue o próprio rabo e fica preso naquele movimento. E roda, roda, roda, roda...


Fazendo a ideia pegar...

Você acha que o cachorro chega a algum lugar com isso? Eu acho que não! Será que é divertido? É legal? Também não deve ser. O que ele poderia fazer para ter uma vida melhor e mais feliz?


O restante da metáfora...

E se eu jogar uma bolinha para o cachorro? Ele com certeza vai correr atrás. Ele vai deixar a prisão que o rabo virou. É natural para o cachorro correr atrás da bola. E é natural para nós também. É um movimento mais feliz.


Agora terminando com a ação comprometida...

Você pode jogar uma bolinha e brincar. Para onde podemos jogar a sua bolinha. O que seria legal, divertido, valoroso e te faria crescer?

Bom, a partir daqui a conversa segue. Em resumo, posso usar uma imagem assim para mostrar como ficamos presos em pensamentos e emoções, como isso não leva a lugar nenhum e como eu tenho escolha. É muito bom descobrir que temos escolha por que recuperamos nossa auto-eficácia. É bom descobrir que podemos jogar a bolinha e brincar e brincar com outra coisa. Essa descoberta dá muita força para fazer mudanças e sustenta-las. Só pode mudar quem descobrir que é livre.


E aí? Aprendeu a jogar a bolinha?Qual a sua bolinha?

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