Pandemia de desinformação: a guerra das fake news

Um dos grandes desafios em saúde que precisamos enfrentar na próxima década segundo a OMS é a reconstrução da confiança na ciência. Nos últimos anos uma pandemia vem ameaçando silenciosamente a saúde planetária à medida em que enfraquece a confiança das populações nas recomendações das organizações nacionais e mundiais de saúde. É uma pandemia de desinformação, a infodemia.


Desde que a internet tornou possível a produção e divulgação independente de informações, todos os habitantes do planeta com acesso a uma conexão se tornaram produtores de conteúdo capazes de influenciar as decisões e a vida de muitos. Considerando que grande parte das pessoas busca na internet as informações que possam ajudar nas suas decisões de saúde elas podem sofrer a influência de qualquer um desses produtores de conteúdo digital. Elas correm o risco de usar informações sem nenhuma validade, com conceitos tão errados a ponto de colocarem suas vidas em risco. As fake news em saúde são um fenômeno muito frequente e por isso mesmo merecem ser consideradas um problema real de saúde pública.


A informação é um dos principais ingredientes para a tomada de decisões. Mas não é o único. As emoções têm um grande peso por estarem ligadas a crenças e temores capazes de influenciar fortemente as decisões de uma forma nem sempre racional. As fake news se aproveitam desse fenômeno dentro de uma dinâmica cultural que é chamada de “era da pós-verdade”. Na “pós verdade” as crenças pessoais e emoções tem mais força para moldar a opinião pública que os fatos, fazendo com que os limites da verdade e da mentira se tornem muito tênues. Na opinião de Ralph Keyes, autor do livro Post-truth Era, a desonestidade está se tornando um “estilo de vida” moderno.


Longe de serem apenas informações erradas, as fake news podem ser produzidas com a intenção explícita de provocar dano. Elas estão dentro de um espectro de problemas ligados à validade da informação chamado hoje de “transtornos da informação”. Instituições como a First Draft trabalham para combater esse problema ajudando a conscientizar a população e profissionais da imprensa sobre a necessidade de identificar e não propagar conteúdos maliciosos. Mesmo quando não existe a intenção de provocar diretamente um dano esses conteúdos têm demonstrado ser perigosos e até letais, principalmente quando estão ligados à saúde.


Um dos exemplos mais preocupantes em saúde pública é a redução da cobertura vacinal devido a disseminação de conteúdo que associa falsamente as vacinas a diversos efeitos colaterais, entre eles um falso maior risco de autismo nas crianças vacinadas. Em vários locais do mundo, inclusive no Brasil, a cobertura vacinal começou a cair fazendo ressurgir doenças que haviam quase sido erradicadas. Segundo a OMS mais de 90% dos países tem apresentado dificuldades em manter a cobertura vacinal. Nos Estados Unidos a baixa adesão à vacinação provocou em 2019 um surto de sarampo, uma doença grave, com o maior número de casos em 25 anos.


No Brasil vivemos a alguns anos um episódio curioso ligado à fosfoetanolamina em que informações sem verificação científica acabaram criando um movimento social tão intenso que levou à mobilização do Congresso Nacional. Após a realização de ensaios clínicos verificou-se que não havia respaudo para o seu uso no tratamento do câncer.


Fora da saúde conteúdos falsos também exercem pressão sobre as instituições públicas. O caso mais conhecido é a polêmica acerca da mudança climática. Apesar de a literatura apontar um consenso de 97% da comunidade científica em torno da ação humana sobre o clima, a desinformação produzida por conteúdo contrário às medidas de controle da emissão de gases ligados ao aquecimento global ameaça acordos internacionais.


No centro da guerra de informações gerada em torno desses e outros temas está uma séria questão. A internet permitiu a criação de um novo tipo de “autoridade” baseada na popularidade ou na percepção, número de visualizações, “likes” ou “curtidas” que permitem maior visibilidade de determinadas fontes a despeito da validade e confiabilidade. Por outro lado a autoridade em ciência é construída através de um “colegiado” informal, formado por todos os cientistas, que se constrói durante anos no debate nas esferas acadêmicas em que os achados e conclusões de pesquisa são discutidos até a construção de um consenso. Um modelo de autoridade e verdade que não combina com aquele que reina na rede. Na internet um achado de pesquisa “temporário” se transforma em fato, o fato é tomado como opinião e a opinião como verdade.


Na internet um achado de pesquisa “temporário” se transforma em fato, o fato é tomado como opinião e a opinião como verdade.



O que pode ser feito para vencer esse inimigo?


Não é exagero concluir que a infodemia ameaça a vida de bilhões de pessoas. Quando a adesão a medidas de saúde pública é enfraquecida pela incerteza criada pela desinformação desastres podem acontecer. A natureza própria da internet de quase completa liberdade de compartilhamento e disseminação de conteúdo com poucos mecanismos de regulamentação torna a luta contra a desinformação um grande desafio global de saúde. A solução para esse desafio passa por duas ações principais, uma preventiva e outra ostensiva.

A prevenção é a abordagem mais valiosa na saúde. É preciso construir uma sociedade crítica capaz de refletir sobre as informações que recebe. A educação em ciência é o caminho mais seguro para reconstruir a autoridade da ciência e blindar a sociedade contra manipulação da informação. Conforme propôs Jawaharlal Nehru, estadista e líder do movimento de independência da Índia, é preciso espalhar na sociedade um “tempero de ciência” para que o método científico seja um estilo de vida.


“Quem de fato poderia se dar ao luxo de ignorar a ciência hoje? A todo momento, precisamos procurar ajuda ... O futuro pertence à ciência e àqueles que fazem amizade com a ciência.”


Jawaharlal Nehru



A construção de uma geração em que questionamento, observação, testagem, capacidade de criar hipóteses e pensamento crítico sejam um modo de viver. A literacia científica é uma espécie de "imunidade informacional" que impede a propagação de conceitos cientificamente errados e perigosos.


Por outro lado é preciso uma ação ostensiva. Cientistas precisam assumir o seu lugar como autoridade dentro de seu campo. Isso ocorrerá se entenderem a lógica de funcionamento dos mecanismos de busca e produzirem conteúdo para fora do meio acadêmico que seja visto e se posicione como “conteúdo de autoridade” de acordo com a lógica da rede. É mais fácil apresentar informação de qualidade que corrigir uma informação errada. Devem também buscar aliados entre profissionais do jornalismo e influenciadores que podem auxiliar na apresentação do conhecimento científico necessário.


É uma verdadeira guerra!


A tarefa de lutar contra a epidemia de desinformação não é das mais fáceis. É uma guerra. Mas é essencial que profissionais de saúde, instituições, governos e cientistas entrem nesse campo. Com a internet e as redes sociais a desinformação se tornou uma arma letal de alcance planetário. Mais do que nunca informar bem salva vidas.


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