• Luiz Carlos Oliveira Júnior

Qual o lugar da carne no seu prato?

Atualizado: Fev 24


Me lembro como se fosse hoje. As cenas e o quanto a história era engraçada. E olha que só assisti uma vez quando era criança! De um lado Nho Quim andando pelo meio do mato, no interior da Brasil, em busca de realizar dois dos seus desejos: casar e comer "carne de vaca". Do outro Carula busca um noivo e tortura a imagem de Santo Antônio para consegui-lo. Não dá para não rir do que esses dois aprontam no filme “A Marvada carne” de 1985, um dos mais engraçados e premiados do cinema nacional.


A carne está no centro dessa história. O caipira acostumado a comer arroz, feijão, milho, mandioca e farinha, de vez em quando comia ovo e galinha. A “mistura” era pouca, a alimentação bem precária. Por isso o sonho de comer carne de vaca, um luxo. O crítico literário brasileiro Antonio Candido usa o termo “fome psíquica” para descrever a sensação de frustração e insatisfação com a vida que o “caipira” sente mesmo quando a fome física estava resolvida com os carboidratos disponíveis. A “carne de vaca” era um símbolo de uma vida melhor e mais rica e resolveria essa “fome”


A abundância de carne não é um símbolo de “riqueza” só para o caipira brasileiro. Dada a dificuldade se obter carne em grande quantidade durante quase toda a história humana ela muitas vezes foi reservada para situações especiais. Algumas vezes era reservada a classes sociais específicas. A carne era nobre e para a nobreza. Seguindo o mesmo curso histórico de outros bens e produtos que antes reservados à poucas pessoas se tornaram muito baratos com a Revolução Industrial, o consumo de carne aumentou em nosso tempo com o estabelecimento de grandes rebanhos e uma “indústria da carne”. A carne hoje é o prato principal.


É um fato que nunca em nossa história foi tão fácil conseguir proteína animal. A dieta dos nossos antepassados provavelmente foi composta de 70 a 80% de alimentos de origem vegetal. Os estudiosos que investigam a evolução da alimentação na pré-história dizem ser difícil ter certeza de qual o padrão alimentar dessa época mas há motivos suficientes para considerar a imagem do “homem das cavernas” agarrado o tempo todo a coxas de animais como uma fantasia. Primeiro porque não é fácil conseguir proteína animal em condições naturais, basta assistir a qualquer programa de sobrevivência na TV para ver isso. Outra razão é que o homem habitou tantos ambientes com tantas diferentes possibilidades de fontes alimentares que cada agrupamento humano acabou se adaptando a uma dieta. Não é sem motivo sermos onívoros. No lugar de pedaços de carne é mais razoável pensar em um cardápio de medula óssea de carcaças abandonadas por outros animais predadores, insetos e larvas.


Que a carne teve um papel importante na nossa evolução também não podemos negar. Um alimento densamente calórico ajuda muito na redução do esforço e tempo dedicados a alimentação. Mas existem também evidências crescentes de que o papel da carne na dieta deve ser repensado. Muitos estudos têm demonstrado uma associação de diversos desfechos negativos de saúde com o maior consumo de carne indo de maior prevalência de doenças crônicas como diabetes e câncer a aumento de mortalidade por todas as causas. É um campo de batalha a discussão de que os estudos em nutrição sejam difíceis de avaliar quanto a causalidade mas quando estudos também demonstram que dieta com mais vegetais e menos proteína animal estão ligadas a melhores desfechos, então na ida e na volta a coisa não parece favorável a comer muita carne.


Se não é possível ter certeza de alguma coisa ainda, podemos ao menos suspeitar que o lugar da proteína animal na dieta deve ser repensado. Não é o caso de excluir a carne completamente do prato, já que ela tem sua contribuição nutricional e cultural para a humanidade. Como um produto nobre ela pode voltar a ser consumida em menor quantidade dentro de uma alimentação em que produtos vegetais integrais sejam a fonte da maior parte das calorias. Pense um pouco: você consegue imaginar alguém comendo uma bacia de caviar beluga ou trufas? Será que esse também não é o lugar da carne? Será que ela não é mesmo uma “mistura” nobre?


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