Dá pra ter qualidade de vida sendo portador da Doença Dor Crônica?


Conviver com uma doença crônica não é tarefa fácil, principalmente quando ela vem acompanhada com a presença de dor.


E apesar de fazer parte da rotina de consultório de muitos fisioterapeutas, as queixas de dor cronica são relatos que nem sempre o paciente percebe o quanto ele mesmo se adaptou ao grau de medo e ameaça que passam a fazer parte da rotina de quem tem a dor como desafio diário.


Na tentativa de dar uma característica a sua convivência com a dor, muitas vezes, são ouvidos relatos de que a dor é algo invisível, que incomoda todo corpo; "doi corpo e alma"; "ninguém acredita que a minha dor é real"; "coisas simples são difíceis de fazer"; "essa dor faz parte de mim, por isso me odeio".


Todos esses relatos representam o somatório da convivência e manifestação de dor ao longo do tempo. Consequentemente, surgem mudanças na perspectiva pessoal deste alarme negativo sobre sua própria relação saúde/doença. Tais mudanças repercutem nos pensamentos associados ou não a crenças limitantes, como, “eu nunca vou melhorar”, “jamais voltarei a ficar bom”, “minha vida acabou, “não tenho como me recuperar”, entre outras crenças que surgem e se apossam do dia-a-dia

de um paciente com doença dor crônica.


Por trás disso, existe um ser humano que sofre. Sentir dor é uma percepção diferente de sofrimento, mesmo que o sofrimento esteja muitas vezes inseparável do “sentir dor” para estes pacientes.


E sob o ponto de vista clínico fisioterápico, esta crença também pode ser mudada; sofrimento envolve a adoção de um comportamento com atitudes capazes de retardar o processo de melhorias no componente físico, por ser influenciado negativamente pelo componente mental emocional, de crenças limitantes, que incapacitam a própria percepção de melhoria física trazida por um tratamento, por conta, por exemplo, de acreditar não ser merecedor de melhorias em sua saúde. E

esta é a crença limitante mais percebida em tratamentos a longo prazo da minha prática fisoterapêutica.


A dor é um produto do cérebro


Pesquisadores, demonstraram que a dor é um produto do cérebro e nem sempre está associada a uma lesão real, e afirmam que dor é uma percepção pessoal. Segundo a IASP (International Association for the Study of Pain) dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável associada ou semelhante à associada a um dano tecidual real ou potencial. Na CID11 o diagnóstico de dor primária crônica é caracterizado por um quadro persistente de dor por mais de 3 meses, associada a

disfunção ou falta de manejo do estresse emocional. Um exemplo é a fibromialgia, em que ocorre um desequilíbrio entre as vias do sistema nervoso central de facilitação das vias ascendentes e inibição das vias descendentes da dor, ou seja, existe alteração no tráfego interno e manifestação da dor. A dor existe independente do diagnóstico que a gerou, e vem acompanhada por alterações emocionais e algumas vezes cognitivas, e recebe o nome de dor nociplastica.


As recomendações de especialistas em relação a melhoria da saúde de doentes com dor crônica incluem mudanças no estilo de vida como a prática de atividade física, alimentação saudável e sono restaurador, ou seja, as orientações preconizadas pela OMS para melhor qualidade de vida.


Dor e qualidade de vida tem em comum a auto percepção pessoal, ou seja, envolvem uma percepção voluntária e consciente. E nem sempre esta percepção é a realidade vivida. Muitas vezes estão sob o véu de crenças desenvolvidas para nos proteger de nós mesmos e do mundo, fugir de críticas e buscar adjetivos com características boas e positivas a nosso próprio respeito, faz parte da natureza humana.


Quando as emoções se tornam disfuncionais nós corremos o risco de realizar associações cognitivas disfuncionais também. Entender que cada paciente tem uma vivência diferente é nossa responsabilidade conforme mostrado pelo modelo Biopsicosocial de Educação em Dor.


Dor como doença crônica tem uma relação muito próxima ao processo de consciência, estado biológico, psicológico, social e de linguagem. E todos estes aspectos repercutem sobre nossa percepção de bem estar com nós mesmos. A dor é um alarme e dificilmente se dissocia da emoção. É por sentir algo desagradável que buscamos ajuda. O que não é adequado é essa dor se transformar em algo disfuncional gerando transtorno de humor, ansiedade e depressão, tão frequentemente observadas nos pacientes com dor crônica. A prevalência de depressão na população geral é de 20% mas quando estudada a populalção portadora de dor crônica sua frequência aumenta para 40%. Para a ansiedade essa relação com dor se manifesta em 30% na população. Como a ansiedade está relacionada com a percepção de uma possibilidade de algo ameaçador é comum que ela esteja presente também em quem sente dor. Sabe-se também que pacientes com depressão e ansiedade estão mais suscetíveis a desenvolver doenças crônicas e vice versa.


Estes aspectos são evidenciados em pesquisas científicas assim como na prática de consultório de muitos fisioterapeutas, principalmente para aqueles pacientes que sentem dor lombar. A lombalgia representa para a Organização Mundial da Saúde como uma manifestação em que 80% da população irá sentir, já sentiu ou sentirá em algum momento da vida.


Mas será então que é possível ter qualidade de vida sendo portador de dor cronica? Como fisioterapeuta coach acredito que sim.


É por meio da terapia cognitivo funcional, proposta por um fisioterapeuta autraliano, Peter Sullivan, que uma nova abordagem mostrou o lado positivo de reforçar no paciente a importância da auto responsabilidade, auto eficácia e participação ativa sobre si mesmo e positivamente, sobre as mudanças no estilo de vida necessárias para conviver com tal condição inerente de certas doenças crônicas.

Essa nova abordagem torna o paciente consciente dos aspectos envolvidos na dor em si e seus efeitos físicos e na educação da doença como um todo, de forma que o paciente entenda o tratamento não como uma intervenção e sim, como um processo.

Almeja-se como resultado positivo que o paciente se sinta mais acolhido. Sabendo onde ele está e pra onde ele pode ir e chegar com o processo do tratamento.

Nessa abordagem um dos objetivos é levar informações, conceitos e educação, de modo que o tratamento faça sentido para o paciente com estratégias de enfrentamento e adesão ao tratamento.


A dor fazendo sentido para o paciente é um convite a refletir sobre o que essa condição impactou na vida dele com atenção nas evidências prévias que o levaram até aquela condição. Conduzir a reflexão, passando pelas fases de pré contemplação, contemplação, preparação, ação e manutenção como estratégias de mudança de comportamento.


A adesão envolve comprometimento, foco e concentração, sair de um estado que provavelmente, foi o princípio gerador daquela situação e se dispor ao engajamento. Engajar-se é um esforço voluntário em direção aos nossos objetivos de modo a se relacionar aos diferentes aspectos da vida por meio de um propósito. Sair da crise, prosperar, viver melhor ocorre quando você transforma essas ideias em atividades práticas.


Este trabalho requer a individualização por respeitar a essência de cada indivíduo e trabalhar o desenvolvimento dos aspectos multifatoriais e biopsicosociais que cada paciente trás. É perceptível resultados positivos por meio dos relatos como: sei que tenho limitações mas não incapacidades; me acordo com vontade de viver; vocês estão devolvendo minha juventude; já consigo agachar e amarrar o cadarço do tênis; é bom poder acordar pra mais um dia com disposição.


E para nós, prestadores de serviços em saúde, cabe desenvolver essa reflexão de forma progressiva a conduzir o raciocínio sem perder a empatia, sem assustar com a palavra “mudança”, mesmo que esta seja a proposta final. E é o nível de satisfação que temos pela vida que determina as possibilidades do nosso alcance, e acredito que esta afirmativa, primeiro, deva fazer parte de nós, profissionais da saúde, para que assim, seja possível levar a adiante para nossos pacientes.

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