Revolução Positiva na saúde

Um dos fatos mais curiosos do nosso funcionamento mental é um claro viés negativo que nos faz perceber com mais rapidez e facilidade os aspectos perigosos e desagradáveis da realidade do que os aspectos positivos. Sentimos e percebemos os defeitos, ameaças e as perdas com mais intensidade que qualquer traço positivo da realidade. É mais doloroso perder algo que não ganhar. É fácil perceber que a mídia e sua audiência tem uma curiosa preferência por desastres. Temos mais capacidade de recordar os eventos desagradáveis que os bons da nossa história.


Isso é inevitável! Nosso cérebro foi construído assim.


Existe uma grande vantagem evolutiva para um animal perceber com rapidez os perigos no ambiente e aprender o que pode ou não acabar com sua vida. Temos estruturas cerebrais dedicadas à percepção do perigo, memória do medo e resposta de agressividade, um circuito neural do medo formado pela amígdala, regiões do tálamo e substância cinzenta periaquedutal, entre outras.


A prática das profissões da saúde é também fortemente marcada pelo viés negativo. Afinal uma das principais tarefas de todos os profissionais da saúde é identificar uma condição de risco para o seus pacientes, uma dor, e depois propor um tratamento. É importante que sinais de perigo para a vida sejam adequadamente e rapidamente interpretados e cuidados sejam tomados para reduzir os danos e o risco de morte. Isso é o mínimo que a sociedade espera de um médico.


Apesar da importância óbvia dessa abordagem para o funcionamento do sistema de saúde ele provocou sérias distorções. Com o acento marcante dessa abordagem curativa que identifica o problema ou defeito e tenta corrigi-lo, desde a formação os profissionais de saúde se tornam “profissionais da doença”. Pouco aprendem sobre como gerenciar a saúde e o seu conhecimento sobre a gestão do mal-estar supera em muito o seu conhecimento sobre a gestão do bem-estar. O efeito sobre os profissionais também não é nada positivo fazendo do burn out um problema grave e frequente.


A epidemiologia fez uma guinada histórica no século passado e iniciou uma era de estresse do modelo médico negativo. Uma vez que as principais causas de mortalidade são doenças crônicas para as quais a cura é uma meta nem sempre alcançável, buscar formas de prevenção e promoção de bem-estar mesmo sob essas condições passou a ser o grande e necessário desafio.


Como adicionar um pouco de positividade na prática da medicina atual? Como promover bem-estar no meio da doença? Como gerir a saúde como algo independente da doença? Como prevenir doenças crônicas? Como encontrar um modelo de prática que seja guiado por uma visão positiva? São grandes questões que abrem a possibilidade de uma gigantesca mudança e exigem muita inovação.


Apesar da positividade na saúde ser algo contrário a grande parte do que se construiu na história da medicina e de outras áreas da saúde existem exemplos de práticas positivas dentro e fora desse campo. É identificando e adaptando essas abordagem que traremos positividade para dentro da casa da medicina.

Dois bons exemplos de prática e teoria de viés positivo que podem dar contribuições e servir de exemplo para construir a medicina positiva são o Inquérito Apreciativo e a Psicologia Positiva.


Inquérito Apreciativo


O inquérito apreciativo é uma metodologia revolucionária desenvolvida por David Cooperrider e Suresh Srivastva na década de 1980 para produzir mudanças e transformações dentro de organizações. Ao invés de seguir o método tradicional de gestão que identifica e intervém em problemas das empresas, o inquérito apreciativo parte da descoberta das forças dentro das equipes para construir soluções inovadoras de crescimento e reorganização dos negócios. Essa metodologia foi adaptada com sucesso para uso dentro da saúde, não apenas na gestão mas também para criação de projetos terapêuticos.


Psicologia Positiva


A psicologia positiva é o exemplo mais bem sucedido de mudança de uma área da saúde para uma matriz positiva. A psicologia e a psicoterapia a muito estavam centradas da investigação e intervenção em aspectos disfuncionais das pessoas, assim como acontece com a medicina. A psicologia positiva deu uma alternativa diferente, um olhar para as forças e qualidades das pessoas que as permitissem vencer com mais resiliência as dificuldades que o contexto de vida, como uma doença, as impusesse. Pesquisar a criatividade, a gratidão, os aspectos saudáveis da personalidade é tão importante quanto entender transtornos mentais. Essa é uma grande reviravolta nos paradigmas da psicologia.


Uma Medicina Positiva?


Imagine por um momento aplicar conceitos como esses na medicina. Buscar as forças de saúde dos pacientes, estudar os seus marcadores de qualidade de vida, os mecanismos que promovem o bem-estar, a melhora da performance, construir organizações de saúde alicerçadas nos talentos tanto dos profissionais quanto dos pacientes que são atendidos, utilizar os recursos das comunidades e famílias para criar mais saúde… São muitas as possibilidades abertas pela positividade.


Muitas mudanças estão em andamento no mundo e também na medicina criando condições que nunca tivemos, problemas que nunca enfrentamos. Cuidar das pessoas em um momento como esse não é apenas remediar uma doença. É essencial cada vez mais buscar a prevenção e promoção da saúde. Podemos usar todos os recursos tecnológicos que estão surgindo como a inteligência artificial, monitoramento de dados de saúde, uso de marcadores digitais e de biologia molecular como ferramentas para construir a ciência de uma medicina positiva e enfrentar os novos desafios de saúde. Esses grandes desafios estão exigindo a revisão do paradigma da medicina moderna: uma REVOLUÇÃO POSITIVA.


A Medicina do Estilo de Vida é uma abordagem positiva. Ela foca na saúde e na construção de hábitos de vida promotores de saúde e bem estar!

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