• Luiz Carlos Oliveira Júnior

Sabedoria Prática

Uma vida feliz e de florescimento é o grande objetivo da vida. Segundo a psicologia positiva, baseando-se no conhecimento milenar e na filosofia, esse objetivo só é alcançado através de uma vida baseada nas virtudes e nos valores. Estes são os grandes orientadores para a construção de uma vida que vale a pena ser vivida. Entre todas as virtudes, a sabedoria se destaca como a maior delas. Os filósofos e teólogos dispensaram atenção e elogios a esta que chamaram de a mãe de todas as virtudes. Durante os milênios a sabedoria ganhou contornos divinos, com Atena/Minerva para os Gregos e Romanos, foi a maior graça possível de ser concedida ao homem e a mais desejada concedida a poucas pessoas nobres de espírito como o Rei Salomão, e até foi identificada com o próprio Deus, na figura da Segunda Pessoa da Trindade Cristã, a Sagrada Sabedoria do Logos. Tanta admiração se deve ao reconhecimento de que a sabedoria, a capacidade de compreender o funcionamento da natureza das coisas e discernir entre as diversas opções que se apresentam na vida, é essencial para a felicidade pessoal e social.


A sabedoria é manifesta através de 5 forças de caráter: a criatividade, curiosidade, julgamento, amor ao aprendizado e perspectiva. Segundo o professor Robert Sternberg, da Universidade de Cornell, criador da Teoria do Equilíbrio da Sabedoria, essas forças são colocadas em ação de forma a encontrar o caminho do equilíbrio entre os objetivos intrapessoais, interpessoais e extrapessoais. Usando a capacidade de deliberar, a inteligência e o conhecimento, tentamos achar o ponto ótimo para satisfazer nossos objetivos pessoais, que afetam apenas a nós mesmos, os objetivos interpessoais, que afetam nossas relações sociais, mas sem que isso seja prejudicial ao quadro maior que envolve o ambiente, a sociedade como um todo e que vai além de nossas vidas.


Um dos grandes filósofos a pensar o lugar da sabedoria na construção do bem estar humano, foi Aristóteles. Especialmente na sua obra Ética a Nicômaco, Aristóteles apresenta um discurso sobre a importância da sabedoria e aquilo que chama de phronesis, ou sabedoria prática. Para ele existem dois tipos de sabedoria, uma teórica que é o conhecimento dos fatos da natureza, a Sophia. O objetivo da sabedoria/sophia é alcançar a verdade das coisas. Ela é o conhecimento do absoluto. A outra sabedoria, a phronesis, é de caráter prático e é o caminho para a vida feliz.


A phronesis, a sabedoria prática, leva em consideração os aspectos particulares no processo de decisão. A vida não é ideal e não corresponde às idealizações que esperamos e que nos são mostradas no campo das teorias. A vida é complexa. Ser sábio de verdade é ser capaz de deliberar levando em conta a influência do contexto específico. Aquela pessoa que é capaz de fazê-lo atende outra virtude, a justiça. A sabedoria prática é a virtude capaz de resolver conflitos entre todas as virtudes. Se, como Salomão, tivermos que escolher um único dom, a phronesis seria uma escolha sábia.


A sabedoria prática é uma competência de grande valor na saúde. Profissionais da saúde fazem escolhas e enfrentam dilemas o tempo todo. O mundo real não obedece aos guidelines e protocolos publicados nas revistas científicas e as evidências apenas reduzem a incerteza que não deixa de existir. Um bom profissional é aquele que toma decisões sábias em condições de incerteza.


Como desenvolver a Sabedoria Prática


Não precisamos esperar que os deuses nos presenteiem com a sabedoria. Sendo uma competência ela pode ser treinada. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles fornece uma receita para cultivar a sabedoria prática em 6 passos. Esses passos devem ser seguidos todas as vezes que for necessário tomar uma decisão sábia.


Conhecimento do propósito das coisas


Aristóteles diz que o primeiro passo para começar a nos tornar sábios é reconhecer que existe um propósito para tudo. O telos é esse propósito final, uma potência que espera ser realizada. Tudo tem um fim, um objetivo: a medicina tem como objetivo conservar a saúde e aliviar a dor; a guerra tem como objetivo a vitória; a educação tem como objetivo aumentar a sabedoria; uma empresa tem como objetivo criar riqueza; a política tem como objetivo o bem estar da sociedade. A sabedoria começa pelo entendimento de qual é esse objetivo.


Qual o objetivo final dessa decisão que devo tomar? Qual a questão principal envolvida nessa decisão?


Percepção


O segundo passo é entender as forças do contexto que estão envolvidas na decisão. Na vida real vários fatores interferem em nossas escolhas. O candidato a sábio precisa investigar, analisar e reconhecer quais são esses elementos, alguns deles às vezes não muito claros. A complexidade, que é uma característica dos dilemas reais da vida, é o que cria a sensação de incerteza.


O que está envolvido nessa decisão? Quais são as variáveis que modificam a decisão? O que faz desta situação um caso particular? Há algo que ainda não identifiquei que pode influenciar a decisão?


Informação


A sabedoria prática não é oposta à sabedoria teórica. Por isso o sábio recorre ao conhecimento buscando informações que ajudem no julgamento das particularidades da situação.


Existem dados científicos que possam ajudar a resolver a questão? O que se sabe sobre esse problema? Existem teorias, regras, normas sobre isso?


Experiência


O sábio não pode ser um teórico. As decisões se tornam cada vez mais sábias quanto mais experiência adquirimos. A experiência acumula conhecimento prático e leva a entender como teoria e prática se relacionam, a qual distância o ideal e o real estão.


Já vivi situações semelhantes? Qual o resultado das decisões que tomei? O que funcionou e o que não funcionou?


Deliberação


Fazer uma escolha entre as diversas opções que a realidade oferece é o cerne da sabedoria. É o seu coração. Todos os passos levam então a assumir uma responsabilidade final que é decidir o que parece ser o melhor considerando a finalidade, as particularidades, o conhecimento e a experiência anterior.


Ação


A sabedoria prática tem como finalidade última a ação. A sabedoria é uma forma de transformar a realidade.


A perda da sabedoria


Na vida e na saúde a sabedoria é uma virtude desejada e admirada mas muitas vezes esquecida. Como lembra Barry Schwartz, autor do livro Practical Wisdom, a criação de regras e protocolos no mundo moderno está levando à perda da sabedoria prática. Quando transferimos para os protocolos a capacidade de decisão abrimos mão de escolher o melhor. A perda da confiança acaba sendo um efeito colateral paradoxal. Deixa-se de confiar no julgamento sábio que individualiza o conhecimento, para se apoiar em um sistema geral que ignora muitas vezes fatores de grande importância. Onde se espera diminuição da incerteza acaba-se conseguindo maior risco de erro.


A saúde baseada em evidência é um exemplo desta situação. Sua filosofia original se assemelha à sabedoria prática aplicada às decisões de saúde. Entretanto, o desconhecimento da metodologia leva à sua perversão, transformando a sabedoria a um conjunto cego de regras que pouco alcança o objetivo final para o qual ela foi criada: reduzir a incerteza e chegar a melhores decisões que beneficiem o paciente.


Quer aprender mais sobre isso? Aqui vão algumas dicas para você!


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