• Luiz Carlos Oliveira Júnior

Santo Propósito

Quem não ouviu falar das histórias famosas do tão famoso Rei Arthur, aquele da famosa espada tirada da pedra, da mais famosa ainda távola redonda, amigo dos seus cavaleiros fiéis que protegem e fazem a fama e glória do famoso reino de Camelot? Quem não conhece certifique-se de ser mesmo deste planeta. Quase impossível não ter ouvido falar, pelo menos por cima, dessa famosa lenda que compõem o Ciclo Arturiano. No centro dessa lenda repousa outra famosa lenda, a do Santo Graal.


Apesar de a maioria de nós associar o Graal ao cálice que Jesus teria usado na Última Ceia e depois teria sido usado para guardar um pouco do sangue dele que jorrou no ferimento de lança na crucificação, sua origem é outra, nem um pouco santa. O Graal é uma lenda celta que foi cristianizada. Ele já foi um caldeirão, um prato, um cálice e até uma esmeralda. As lendas em torno desse objeto o associam a uma capacidade milagrosa de renovar a vida, dar vigor a quem já o perdeu, felicidade para quem não a tem e abundância. Arthur e seus cavaleiros o buscavam desesperadamente para salvar Camelot de uma crise lendária.O Santo Graal se tornou no fim a busca última e obsessiva de todos eles, uma motivo para viver e morrer.


A lenda do Graal, como toda lenda, é um receptáculo de verdades profundas sobre a natureza humana. Ela pode ser considerada um arquétipo sobre a importância fundamental do sentido ou do propósito para a vida. O tal propósito, tão procurado e debatido, tão lendário quanto o Graal, que alguns encontram, outros não e uns terceiros já acham até que não existe. Vamos então seguir os passos de Arthur e conferir o que a ciência diz sobre isso, o quanto é verdade, o quanto é lenda sobre o “Santo Propósito”.


O que é propósito afinal?


Para começo de conversa precisamos definir o que o santo propósito é. Com frequência os termos propósito e sentido são usados de forma intercambiável. Mas não são equivalentes. O propósito é um conjunto de metas de vida, com objetivos que dão direção às ações enquanto que o sentido de vida é o entendimento de que a história passada e os fatos presentes tem uma ligação. O propósito tem direção rumo ao futuro dando sentido para as escolhas que fazemos no presente. O sentido de vida é a busca de um senso de coerência, olhando para o passado. Martela e Steger em uma revisão sobre as definições de sentido e propósito acrescentam ainda o termo significância que é a percepção de valor ou importância na vida e nos fatos. O propósito impulsiona para o futuro fazendo com que ao olhar para trás possamos entender um sentido e decidir se nossas ações levaram a uma vida significante.


(Mesmo estabelecendo essa separação de conceitos para facilitar a pesquisa é preciso ter atenção ao ler autores que discutem esse tema, como por exemplo Viktor Frankl, pai da logoterapia. Nos seus textos “sentido” se aproxima mais do que estamos chamando de propósito)


Faz diferença ter um propósito?


Poderíamos perguntar aos cavaleiros da Távola Redonda se vale a pena procurar o Graal, pelo menos o do propósito. Mas é mais fácil e certo perguntar para a ciência. O que a literatura nos mostra é uma resposta positiva. Essa é uma aventura que tem valor. Locke e Latham, criadores da Teoria de determinação de metas, propõem a ideia de que a vida é proposital, de que todo ser vivo funciona dirigido para um objetivo, uma meta. O principal motivador de qualquer ação é sua ligação com uma meta.


Na dimensão da saúde o propósito parece ter um efeito semelhante ao Graal, que concedia saúde e bem estar, longevidade e prosperidade. Diversos estudos demonstram impacto positivo do propósito de vida sobre desfechos importantes de saúde como redução da mortalidade por todas as causas em idosos, melhor recuperação após cirurgias em joelho, menor mortalidade por doenças cardiovaculares e menor incidência de acidente vascular cerebral. Um estudo publicado na PNAS por Erik Kim e outros autores chegou a associar propósito com redução do número de noites de internação hospitalar. Outros estudos demonstram proteção contra a ocorrência de transtornos mentais como depressão.


Como eu encontro o meu propósito?


Essa é a pergunta de ouro. Onde encontro o propósito? A resposta mais certa é que não encontramos, mas criamos um. Ou melhor, ele é criado em nós a partir de nossos valores, gostos pessoais, experiências de vida e forças de carácter. Vamos ligando os pontos e descobrindo que somos atraídos por uma atividade, causa ou valores específicos que deram um sentido ao passado. Os filósofos existencialistas com Nietzsche e Sartre discutiram essa profunda liberdade e solidão que acompanha a obrigação de cada ser humano construir um sentido de vida.


“Cada homem, sem nenhum suporte ou qualquer ajuda, está condenado a cada instante a inventar-se”
Sartre

Isso não precisa ser visto como algo trágico. Significa que temos liberdade de construir e escolher nosso propósito. Como opinião pessoal acredito que os nossos propósitos são inventados por nós em cada escolha diária. Cada vez que com atenção julgamos se algo é adequado para a vida que queremos ter, se se encaixa ou não em nossos desejos, estamos esclarecendo nosso propósito. Viktor Frankl explica que, em seu entendimento, o que move o ser humano não é desejo de poder ou prazer, mas uma vontade inescapável de sentido que nos permite experimentar um sentido em qualquer situação.


O que fazer se não sei onde está o Graal?


Primeiro, não sofra com isso. Você já sabe, só não tem clareza. Busque nos seus valores, nas coisas que gosta e não gosta, no que faz sentido para você ou não das experiências já vividas, o começo do novelo e depois vá puxando a linha. Não há outro caminho a não ser a exploração atenta e reflexiva da nossa própria vida. Mas é importante lembrar: não existe uma resposta que está escondida em algum lugar e pode ser descoberta por algum “mago Merlim”; não é uma questão de ficar parado esperando achar esse segredo para depois começar a viver. Cuidado para não usar a busca do propósito como uma desculpa para não agir! Escolha um rumo, sem medo de errar, baseado nos seus valores, e comece a construir um propósito. Lembre-se do poeta Antônio Machado:


“Caminhante, não há caminho; o caminho se faz ao caminhar.”
0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
Assine a nossa newsletter

Pilares

Ajudas

Contato

Rua Anchieta, 371 - Lídice
Uberlândia/MG
[34] 3217.0001
  • Branco Facebook Ícone
  • Branca Ícone Instagram
  • Branca ícone do YouTube
  • Branca Ícone LinkedIn
  • Branca Ícone Beatport

©  MEV Brasil 2020. Todos os direitos reservados

agenciar8.png