• Luiz Carlos Oliveira Júnior

Seja grato... no seu trabalho!

Quantas vezes já ouvi pessoas reclamarem de seus trabalhos. Inúmeras! Eu também estou entre os que já reclamaram. Temos esse direito, principalmente quando estamos em trabalhos desalinhados com nossos valores. E inúmeras vezes ouvi pessoas respondendo a essas reclamações com “seja grato pelo seu trabalho… pelo menos você tem um.” Não funciona bem assim, valores são mesmo inegociáveis, mas não vou discutir isso agora. Gostaria de te convidar a pensar de uma forma diferente desta sobre a relação entre gratidão e trabalho: ser grato no trabalho!


Essa pode parecer mais uma sugestão ridícula e desconectada da realidade dada por algum guru. Muito longe disso. A gratidão é um assunto sério para a psicologia. São muitas as pesquisas já realizadas sobre ela, seu impacto sobre diversos aspectos da saúde e da vida, além do estudo de como intervenções baseadas na prática da gratidão podem ser utilizadas no mundo real.


A gratidão é uma emoção social e tem também um componente cognitivo. Sua função é criar laços sociais mais fortes para melhorar a cooperação. Podemos dizer que a evolução usa a gratidão para garantir que o ser humano trabalhe em equipe e não viva mergulhado em uma bolha de individualismo. A natureza humana evoluiu com a consciência de que sozinhos não sobrevivemos muito tempo. Não importa o quanto você seja forte, alto, rápido, bonito ou esperto, não será isso tudo ao mesmo tempo, o tempo todo e da forma necessária para sobreviver aos inúmeros desafios possíveis que a vida real,a selva, pode nos apresentar. A solução é entender que somos vulneráveis em algum ponto, precisamos de complemento, precisamos de alguém para nos ajudar. “Não é bom que o homem esteja só”, diz o texto bíblico sobre a origem de tudo.


Como garantir a colaboração?


O medo não é um bom laço de união. Por medo podemos até formar alianças temporárias. Mas elas vão desaparecer logo que o perigo passar. Uma emoção positiva, como o prazer, é muito mais eficaz para objetivos de longo prazo. A gratidão, os estudos de neurociência mostram, libera dopamina, melhora o sono, reduz a percepção de dor e estresse e muda o funcionamento do sistema límbico, responsável pelas emoções e parte do comportamento. A gratidão nos ajuda a reconhecer que precisamos estar juntos e nos faz sentir prazer por isso.De forma contraditória ela expõe nossas fraquezas mas nos dá uma grande sensação de segurança e proteção. Uma onda de emoção positiva é criada pela prática de gratidão e, de acordo com a teoria de ampliação e construção da pesquisadora Barbara Fredrickson, isso impulsiona a criatividade e a resolução de problemas.


Isso funciona na selva corporativa?


O mundo do trabalho e dos negócios não é brinquedo. Como a gratidão poderia ser item observado nesse ambiente? Já está explicado. Na selva dos negócios precisamos do mesmo aparato evolutivo que gerou a necessidade da gratidão na selva real: cooperação intensa, segurança psicológica, aceitação, capacidade de inovar. A gratidão faz isso tudo.


Ela reduz as disputas sem sentido dentro das equipes, aumenta a chance de cooperar em projetos difíceis, reduz o estresse, gera mais satisfação com a tarefa. Que gestor não gostaria de uma ferramenta que reduzisse os problemas de relacionamento pessoal dentro do time? Quanto tempo e esforço da gestão não é gasto administrando picuinha? Essa ferramenta já existe, como já disse.


Ocupamos a maior parte do nosso tempo no trabalho. Tiramos dele não somente recursos materiais para sobrevivência. Como diz o professor da Foster School of Business, Ryan Fehr, o trabalho não é apenas um espaço em que fazemos transações em que o esforço e ideias são trocados por dinheiro. Tiramos dele respostas sobre quem somos, o quanto somos bons e em quê. O trabalho maior no trabalho tem a ver com encontrar significado, não importa os gritos em contrário dos contrários à busca do propósito. E esse sentido vem muito da relação que temos com os outros, do reconhecimento que leva ao conhecimento de quem somos. Pesquisa conduzida pela Deloitte mostra que muitas vezes, e para a maioria das pessoas dentro das empresas, basta um “obrigado”. Quer uma forma mais fácil e barata de gratificar a equipe e aumentar seu desempenho e envolvimento?


Mas por que não fazemos isso então?


Tenho duas possíveis respostas. Uma é que podemos ser todos idiotas e não estarmos vendo o óbvio embaixo do nosso nariz. A outra é que desenvolvemos uma cultura cega para nossa natureza humana. Fazemos um esforço muito grande para negar que somos sim incompletos e precisamos dos outros, do seu carinho e afeto. Não adianta ficar negando isso e taxando como antiprofissional por medo. Sim, temos medo de dizer que buscamos emoção e gratificação. Como se fosse possível estar com um grupo de pessoas durante 8 horas por dia, no mínimo, durante meses ou anos, e esperar que nenhum afeto esteja envolvido. Ou nossos corações estão revestidos por teflon ou somos mesmo idiotas, o que confirma a primeira hipótese.


Existem muitos motivos para ser grato no trabalho. Dos mais práticos e quantificáveis em resultados diretos para a gestão e balanço financeiro das organizações até aqueles considerados sentimentais demais para serem, explicitamente, mencionados em uma reunião de acionistas. Mas a verdade é que somos humanos e grande parte das vezes um obrigado é muita coisa.

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