• Luiz Carlos Oliveira Júnior

Um velho “novo conceito em saúde"

Atualizado: Fev 24

A expressão “um novo conceito” foi desgastada pelo uso. Um decepcionante “novo conceito em pizza”, um “novo conceito em sorvete” ou um “novo conceito em petshop” surge todo dia no seu bairro para provar que um conceito verdadeiramente novo não surge assim tão fácil. Um conceito é uma definição operacional que determina como lidamos com qualquer objeto no mundo. Se mudamos o “conceito” de algo, mudamos tudo na nossa relação com esse objeto. Mudanças capazes de “mudar um conceito” de algo são chamadas de forma merecida de disruptivas por que transformam tudo que tem relação com ele.


O conceito de saúde cristalizado na cabeça de todos, tanto de pacientes quanto de profissionais, é a ausência de doença. Essa definição determina e dá forma a toda a relação dentro da área de saúde e cria facilidades e anomalias. Doença é um conjunto de sinais e sintomas que se relacionam a uma causa e está catalogada pela nosologia, ciência que classifica e nomeia as enfermidades. Definir uma doença facilita a comunicação entre profissionais, a pesquisa, o diagnóstico e o tratamento.


Esse conceito de saúde é útil para muitas dessas operações. Mas a realidade da clínica cotidiana desafia e mostra o quanto ele é falho. Não é incomum que pacientes procurem os serviços de saúde com sintomas que não se encaixam nas definições das doenças descritas, com exames sem alterações, e ouçam dos profissionais que “eles não tem nenhuma doença” e não recebem nenhum tratamento. Os pacientes continuam não se sentindo saudáveis e não encontram melhora por que nenhuma intervenção está descrita para algo que “não existe” dentro do conceito de saúde utilizado.


Há décadas a Organização Mundial da Saúde (OMS) propõe um “novo conceito” em saúde que se adotado em todos os níveis, da pesquisa ao atendimento diário e até na organização dos serviços de saúde, seria mesmo disruptivo. A OMS substitui a ideia de saúde pela de bem-estar, que é bem mais ampla e desafiadora. O bem-estar é multidimensional e abrange mais que a saúde física. Além do bem-estar físico essa ideia engloba o bem-estar emocional, espiritual, intelectual, ocupacional, mais ligados aos aspectos individuais, social e ambiental que expandem o conceito para suas relações com todos os seres humanos e o planeta.


Essa definição de saúde mais completa e complexa impõe desafios enormes e, se a levássemos ao limite, transformaria por inteiro a forma de entender e praticar a medicina. Mesmo se não estivermos dispostos a virar o jogo nesse nível, adotar esse conceito traz oportunidades interessantes. Por essa definição, mesmo não sendo possível curar uma doença, é possível trabalhar no objetivo de melhorar o bem-estar nas outras dimensões. Uma enorme gama de intervenções diferentes podem ser desenvolvidas e aplicadas para melhorar o bem-estar. São muitas as oportunidades. Esse velho “novo conceito” de saúde seria verdadeiramente disruptivo.


Na Medicina do Estilo de Vida o bem-estar é um conceito mais interessante que o coloquial. As intervenções propostas na MEV se baseiam na ideia de que o cuidado deve ser multifacetado, que as mudanças que conduzem à prevenção de doenças e melhora da saúde exigem uma visão holística, como a de bem-estar.

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