Variabilidade da FC: Místico ou realmente funciona?

Da ciência a prática baseada em evidências, a variabilidade da frequência cardíaca (VFC) possui seus lovers e haters.


Para profissionais mais tradicionais é uma medida que não significa muita coisa no mundo real, para profissionais mais arrojados é quase como a transcrição de mundo quântico. Afinal, isso realmente funciona?


Bom, como quase tudo na área da saúde, ficamos mais no meio do caminho. O famoso “depende”.


Depende do que e de quem você quer avaliar.


O sistema autonômico (SNA) é o responsável pelo equilíbrio dinâmico do organismo, sendo assim quanto maior sua capacidade de se adaptar, se moldar aos estímulos, mais saudável ele poderia ser considerado. Em outras palavras, quanto mais VARIÁVEL melhor.


Essa variação acontece conforme a demanda e pode ser refletida na frequência cardíaca, por meio dos braços do sistema autonômico, simpático e parassimpático.


O coração não depende de inervação externa para funcionar, no entanto está sujeito ao SNA para seu gerenciamento em resposta às necessidades criadas pelo ambiente e variações do débito cardíaco. Em outras palavras, existe uma atividade constante, inerente ao órgão onde o SNA por intermédio dos seus ramos parassimpático e simpático, modula essa atividade conforme oferta e demanda de outros tecidos.


A VFC é uma forma de avaliar o SNA por meio destes ramos. Ela é a variação em milissegundos entre os intervalos das ondas R, do eletrocardiograma (figura 1). Esses intervalos são dispostos em um tacograma, que nada mais é do que a distribuição dos milissegundos no tempo (figura 2). Com essas informações podemos fazer a análise e inferências do sistema nervoso autonômico.

Figura 1 – Representação das ondas de um eletrocardiograma


Figura 2 – Tacograma (Imagem do banco de dados do meu Mestrado)


No entanto, como a captação da VFC é feita baseada na “elétrica” do coração, ela APENAS esta te posicionando sobre o estímulo no nódulo sinusal. Sendo assim, a melhor descrição seria “analisar a modulação autonômica da Frequência Cardíaca” e não de todo sistema autonômico.


Então começa toda “mística”, que também pode ser chamado de estatística.


Dependemos disso para análise da modulação autonômica da frequência cardíaca

Com os dados do tacograma, existem dezenas de cálculos estatísticos que podem ser realizados. É preciso entender minimamente o funcionamento do sistema autonômico e a origem dos cálculos, para interpretação mais assertiva.


Os cálculos podem ser feitos por métodos lineares, no domínio do tempo ou da frequência ou métodos não lineares, no domínio do caos.


O domínio do tempo é o mais comum e seus resultados são obtidos por meio de preceitos estatísticos, matemáticos e geométricos. Enquanto o domínio da frequência é resultado da análise da densidade do espectro de potência.

Relógios inteligentes, como os da Apple, utilizam apenas 1 índice no domínio do tempo e você não tem acesso a base de dados usada para o cálculo. Enquanto alguns modelos da marca Polar, você tem acesso ao banco de dados, podendo aplicar qualquer método que achar mais conveniente.


Vale lembrar que, ambas marcas foram validadas cientificamente, sendo compatíveis

com eletrocardiograma de curto e longo período (5’ a 24hs).


Os índices mais simples são SDNN, rMSSD, ambos no domínio do tempo, e o nome é um acrônimo do respectivo cálculo estatístico em inglês.

O índice SDNN foi o primeiro a ter grandes publicações, com sua redução associada a morte prematura em pacientes pós-infarto.


Qual o problema dele?


Ele é o desvio padrão dos intervalos R-R normais de um dado período. Por ser o desvio padrão, quanto maior a quantidade de intervalos, mais preciso será a análise.

O que isso quer dizer na prática?

ESTE ÍNDICE NÃO AFERE O SISTEMA NERVOSO PARASSIMPÁTICO!

Está em capslock porque este é o índice entregue pelo Apple Watch, até agora. Para uma boa análise dele, precisamos de 24hs de dados.

Devido a diferenças anatômicas e fisiológicas entre o sistema parassimpático e simpático, a resposta do sistema parassimpático é muito mais rápida, acontecendo de forma quase imediata ao estímulo.

ESTE ÍNDICE ANALISA A ATIVIDADE GLOBAL!

Em outras palavras, o balanço entre simpático e parassimpático (SNS; SNP)! Não distinguindo se houve alteração do SNS ou do SNP.

Isso mesmo, eles não funcionam como uma balança, a redução de um, não significa o proporcional aumento do outro e vice-versa.


Para avaliar somente o SNP atuando no nódulo sinusal, seria preciso olhar a mudança de cada batimento cardíaco em relação ao anterior e ao próximo.


Vos apresento rMSSD (raiz quadrada da média do quadrado das diferenças entre os intervalos R-R normais adjacentes).

Ele é tido por muitos pesquisadores como o de maior confiança na atualidade, e pode ser avaliado com poucos minutos de gravação, quiçá segundos.

É uma ótima forma de analisar o sistema nervoso parassimpático, ou sistema vagal.


Mas e a utilidade disso na prática?


De fato, é muito delicado, tanto a forma de avaliar, como os resultados em si. Existem equipamentos que aferem a variabilidade da pressão arterial, junto com a VFC, trazem informações muito interessantes.

Agora, quando falamos do sistema autonômico cardíaco, existem condições que alteram essa medida:


Ciclo circadiano, qualidade do sono, esvaziamento da bexiga, cafeína, algumas doenças, em especial as que alteram o ritmo do coração, fármacos, temperatura, posição do corpo, ruídos altos e várias outras.

Ainda, você pôde perceber que o assunto não é tão simples para apenas pensarmos em “aumentou a variabilidade bom, diminuiu ruim”.

FIQUE TRANQUILO


Também não é tão complicado, após entender um pouco mais.

É possível utilizar e extrair informações importantes do seu paciente, desde que você o conheça!

Eu junto com a MEV Brasil, iremos organizar um evento para aprofundar nos mecanismos de atuação, em outras formas de análise dos dados, qual melhor índice para avaliar o SNS e em mostrar como você pode implementar na prática esta ferramenta.

Sempre baseado em evidências


Fique atento!

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